{"id":112,"date":"2021-06-04T21:26:32","date_gmt":"2021-06-05T00:26:32","guid":{"rendered":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/?p=112"},"modified":"2021-06-04T21:26:32","modified_gmt":"2021-06-05T00:26:32","slug":"conversinha-sobre-arte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/conversinha-sobre-arte\/","title":{"rendered":"Conversinha sobre arte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Decididamente, a minha cidade n\u00e3o \u00e9 terra de m\u00fasicos. Minto. N\u00e3o \u00e9 terra de conjuntos, de orquestras, de profissionais organizados, que m\u00fasicos h\u00e1 muitos por a\u00ed, nos butecos, em noites de sexta. Relacionados, conhecidos, tirando os que arranham, h\u00e1 uns duzentos e tantos violinistas. Jamais algu\u00e9m conseguiu juntar pelo menos dois deles, para uma seresta. A Secretaria da Cultura da cidade se imp\u00f4s, neste momento, a obriga\u00e7\u00e3o de criar uma Banda Municipal. Instrumentos s\u00e3o muitos, novos, atraentes, pisto, flauta-doce, sax-tenor, prato, e outros e outros. Abriram espa\u00e7o para ensaio, contrataram um vero professor, talentoso.<\/p>\n<div id=\"post-body-4891159747000421986\" class=\"post-body entry-content\">\n<div dir=\"ltr\">\n<div style=\"text-align: justify;\">Conta Os\u00f3rio C\u00e9sar que, havendo no Hospital do Juqueri, em Franco da Rocha, v\u00e1rios doentes que conheciam m\u00fasica e tocavam instrumentos, certa vez lembrou o Dr. Leopoldino Passos de encarregar um antigo esquizofr\u00eanico paran\u00f3ide de organizar uma banda. Fez-se uma coleta entre os m\u00e9dicos e empregados, e comprou-se o instrumental para uma pequena charanga. O posto de regente coube a um parafr\u00eanico m\u00edstico, pistonista e compositor. Encomendaram-se pe\u00e7as harmonizadas com partituras, dobrados, valsas, rocks. A banda se chamou Charanga Hebefr\u00eanica. Entre os m\u00fasicos, destacavam-se, de vez em quando, guinchos estridentes. A trompa e o trombone rasgavam acompanhamentos distonados. Em compensa\u00e7\u00e3o, a bateria brilhava pela justeza na marca\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Algumas vezes acontecia que o pistonista atormentado por alucina\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas do seu quadro mental, baixava a cabe\u00e7a, persignava-se, soltava uns grunhidos e ajoelhava-se, rezando. Passada a crise, volta a interpretar a sua parte. O baixo, que era epil\u00e9tico, podia ser tomado repentinamente de crises convulsivas;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Um dia, fui ouvir um concerto dado pela Charanga. Os doentes iam tocando bastante bem, revelando um esp\u00edrito de organiza\u00e7\u00e3o e sociabilidade razo\u00e1veis e tamb\u00e9m boa mem\u00f3ria musical, ao tocarem de cor. \u00c0s tantas, algum largava de m\u00e3o a corneta, o trombone, e plantava uma bananeira em cima do estrado. O resto da turma \u2013 taratatchim! taratatchim! \u2013 continuava com a tocata. O outro voltava dali a pouco, recome\u00e7ando a fun\u00e7\u00e3o com o maior entusiasmo. E eram \u201cintermezzos\u201d, com o flautim pulando num p\u00e9 s\u00f3, a percuss\u00e3o desistindo, para ca\u00e7ar borboletas inexistentes e o audit\u00f3rio e o restante da banda \u2013 em frente! em frente! \u2013 certos de que o tr\u00e2nsfuga voltaria.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Longe de mim a compara\u00e7\u00e3o. N\u00e3o quero levantar falso testemunho contra os bandeiros, bandistas, nossos. Mas ouso cogitar que, se algu\u00e9m der com uma gaiola de passarinho, com um chama cantador, daqueles bons, ou vara de pescar com carretilha, com esses rios e esses vales e esse sol e essa alegria dos dias c\u00e1lidos, e com esses caminhos que n\u00e3o levam para lugar nenhum, a n\u00e3o ser para o infinito, ah! ningu\u00e9m volta para a Banda, n\u00e3o!<\/div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-113\" src=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/07-Botelho-Netto-22-300x202.jpg\" alt=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" width=\"300\" height=\"202\" title=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" srcset=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/07-Botelho-Netto-22-300x202.jpg 300w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/07-Botelho-Netto-22-1024x689.jpg 1024w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/07-Botelho-Netto-22-768x517.jpg 768w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/07-Botelho-Netto-22-1536x1033.jpg 1536w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/07-Botelho-Netto-22-272x182.jpg 272w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/07-Botelho-Netto-22.jpg 1549w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decididamente, a minha cidade n\u00e3o \u00e9 terra de m\u00fasicos. 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