{"id":116,"date":"2021-06-04T22:12:40","date_gmt":"2021-06-05T01:12:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/?p=116"},"modified":"2021-06-04T22:12:40","modified_gmt":"2021-06-05T01:12:40","slug":"apesar-dos-pesares","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/apesar-dos-pesares\/","title":{"rendered":"Apesar dos pesares"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Mal come\u00e7am os calores abafadi\u00e7os de fim de ano o notici\u00e1rio se enche de informa\u00e7\u00f5es sobre crian\u00e7as pobres desidratadas, das favelas e corti\u00e7os. Mal o inverno desponta e vem o tempo seco, l\u00e1 v\u00eam as doen\u00e7as respirat\u00f3rias. Ainda mais agora que a fome vem tirando a resist\u00eancia da inf\u00e2ncia, e \u00e0 nossa porta se multiplicam os pedintes.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O m\u00e1ximo que se pode fazer nas circunst\u00e2ncias, e \u00e9 o que fazem os m\u00e9dicos dos servi\u00e7os de assist\u00eancia, \u00e9 acudir ao pequeno de vida amea\u00e7ada, deix\u00e1-lo fora de perigo, e devolv\u00ea-lo ao corti\u00e7o. Para passar fome de novo. E ent\u00e3o morrer. A desidrata\u00e7\u00e3o j\u00e1 se chamou colerina e era uma esp\u00e9cie de c\u00f3lera em ponto pequena, mas n\u00e3o a ponto de poupar os corpos de que se apossava. Que eram afinal a gastrite e a gastro-enterite, sen\u00e3o o depauperamento, a pouca resist\u00eancia, a falta de alimenta\u00e7\u00e3o adequada? Que era a colerina? Que \u00e9 tudo isto sen\u00e3o a fome, devoradora de crian\u00e7as? Irm\u00e3 \u00c2ngela, a devotada irm\u00e3zinha de um hospital de pobres, dizia, com uma express\u00e3o celestial na face macerada: \u201cCrian\u00e7a \u00e9 tripa!\u201d, defini\u00e7\u00e3o que n\u00e3o prima pela beleza, nem pela poesia, mas tem o que uma defini\u00e7\u00e3o precisa: \u00e9 concisa e exata.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Que l\u00e1 na minha terra morria muita crian\u00e7a: desses calores e desses morma\u00e7os, de leite pouco e de pobreza muita. Dona Alexandra, assessorada pelo filho marceneiro, fazia o caix\u00e3ozinho azul ou rosa, de fazendinha colorida e brilhosa, ralinha, ordin\u00e1ria e enfeites de gal\u00e3o prateado. O enterro vinha dos bairros: do Pit\u00e9u, da Lagoa Seca, do Morro Vermelho, de onde tamb\u00e9m chegavam carregados, nas noites de s\u00e1bado, homens lanhados de faca. Pelas ruas dessa Cachoeira, com aterros de moinha de carv\u00e3o de pedra, toda negra e ardente, enterro de crian\u00e7a tinha (e ainda tem) uma curiosa particulariedade. Ia o caix\u00e3o na frente, o anjinho entre flores, com uma capela de rosas de papel, o rosto descoberto, e atr\u00e1s meninas carregavam a tampa. N\u00e3o havia enterro de crian\u00e7a sem bimbalhar de sino. Morte de menino at\u00e9 parece que era motivo de regozijo, prociss\u00e3o percorrendo as ruas, mortezinha sem choro, mocinhas de bra\u00e7o dado, com ramalhetes de sempre-viva e rosa amarela na m\u00e3o, manjerona cheirosa, alecrim. E o sino bimbalhando, m\u00fasica, festa. Ouvia-se o coment\u00e1rio desiludido do povo, em suspiros doidos: descansou. Feliz quem vai em crian\u00e7a. Livra de muito sofrer. Quisera eu ter ido assim, pequenino.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas, qualquer dentadinha \u00e0 toa de cascavel, ou de urutu, o tenebroso, era um carreir\u00e3o do apavorado para a santa casa: me salve, irm\u00e3 \u00c2ngela, minha Nossa Senhora!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Gente imp\u00e1vida da minha terra. Ningu\u00e9m, mas ningu\u00e9m querendo deixar de sofrer.<\/div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-117\" src=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Botelho-Netto-122-203x300.jpg\" alt=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" width=\"203\" height=\"300\" title=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" srcset=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Botelho-Netto-122-203x300.jpg 203w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Botelho-Netto-122-693x1024.jpg 693w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Botelho-Netto-122-768x1134.jpg 768w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Botelho-Netto-122.jpg 948w\" sizes=\"auto, (max-width: 203px) 100vw, 203px\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mal come\u00e7am os calores abafadi\u00e7os de fim de ano o notici\u00e1rio se enche de informa\u00e7\u00f5es sobre crian\u00e7as pobres desidratadas, das favelas e corti\u00e7os. 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