{"id":29,"date":"2021-02-16T23:41:14","date_gmt":"2021-02-17T01:41:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/?p=29"},"modified":"2021-05-21T19:15:14","modified_gmt":"2021-05-21T22:15:14","slug":"prefacio-filhos-do-medo-por-joaquim-maria-botelho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/prefacio-filhos-do-medo-por-joaquim-maria-botelho\/","title":{"rendered":"Pref\u00e1cio Filhos do Medo por Joaquim Maria Botelho"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_40\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-40\" class=\"wp-image-40 size-medium\" src=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/OS-FILHOS-DO-MEDO-1a-EDICAO-225x300.jpg\" alt=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" width=\"225\" height=\"300\" title=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" srcset=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/OS-FILHOS-DO-MEDO-1a-EDICAO-225x300.jpg 225w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/OS-FILHOS-DO-MEDO-1a-EDICAO.jpg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><p id=\"caption-attachment-40\" class=\"wp-caption-text\">Filhos do Medo &#8211; 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o em 1950<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PREF\u00c1CIO PARA UM LIVRO LIBERTADOR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joaquim Maria Botelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este livro recupera manifesta\u00e7\u00f5es do medo, um dos quatro gigantes da alma, no dizer de Mira y Lopes. Gnomos, duendes, assombra\u00e7\u00f5es, sacis, mulas sem cabe\u00e7a, diabos e dem\u00f4nios, envolvidos nas mais diversas e arrepiantes situa\u00e7\u00f5es que o povo se encarrega de fazer perdurar na mem\u00f3ria dos descendentes pelo reconto, pela tradi\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autora, Ruth Guimar\u00e3es, recolheu hist\u00f3rias como quem garimpava ouro, no tempo em que ouro havia. Foi menina arteira, e convivia com as fam\u00edlias dos pe\u00f5es e colonos da fazenda que o pai administrava, no sul de Minas Gerais, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920. Preferiu sempre a companhia dos mais pobres, dos desvalidos, dos esquecidos. Participou de suas vidas e de seus mist\u00e9rios. Deles ouviu, com toda a aten\u00e7\u00e3o do mundo, os relatos de princesas e pr\u00edncipes, das espertezas dos caboclos, das andan\u00e7as de S\u00e3o Pedro pelo mundo, e das aventuras dos animais, do tempo em que os animais falavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, regalou-se com as hist\u00f3rias contadas pela av\u00f3, ao p\u00e9 da fogueira, nas noites l\u00edmpidas de Cachoeira Paulista, no estado de S\u00e3o Paulo. A av\u00f3 traduzia, para a neta menina, as tradi\u00e7\u00f5es dos \u00edndios e dos negros. E Ruth ouviu, muito direitinho. Estremecia, a menina Ruth, dominada pelo medo ancestral dos dem\u00f4nios que nos perturbam a imagina\u00e7\u00e3o desde os tempos da caverna. Bem jovem, decidiu recontar essas hist\u00f3rias, primeiro porque precisava se libertar dos pavores da inf\u00e2ncia, e tamb\u00e9m porque estava segura de que tinha em m\u00e3os o tesouro da tradi\u00e7\u00e3o oral do povo que ela amava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma de suas cr\u00f4nicas, publicada em 2007 no jornal ValeParaibano, de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, Ruth Guimar\u00e3es disse isto, sobre a sua literatura:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><em>\u201cAh! Eu conto hist\u00f3rias para quem nada exige, e para quem nada tem. Para aqueles que conhe\u00e7o: os ing\u00eanuos, os pobres, os ignaros, sem erudi\u00e7\u00e3o nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mist\u00e9rio. Essa \u00e9 a \u00fanica humanidade dispon\u00edvel para mim. Quem me dera escrevesse com suficiente profundeza, mas claramente e simplesmente, para ser entendida pelos simples e ser o porta-voz<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>dos seus anseios. Meu tem\u00e1rio s\u00e3o as acontec\u00eancias sem eco no mundo, mas que ajudam a explicar a vida e seus segredos, que talvez possam conter a alma imortal de cada um, seja do r\u00fastico, seja do letrado, com suas virtudes essenciais.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi esse pensamento que a fez, em 1940, reunir num volume os racontos todos de diabo e de assombra\u00e7\u00e3o, de duendes e pequenos dem\u00f4nios como o saci, a mula sem cabe\u00e7a e o lobisomem, e foi procurar o grande M\u00e1rio de Andrade. Escreveu uma carta ao mestre, sem grandes esperan\u00e7as. Ela mesma conta, numa segunda carta ao autor de \u201cMacuna\u00edma\u201d:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cTinha eu vinte anos e pensava que sabia escrever. O mundo era inteirinho meu, largo, imenso, doa\u00e7\u00e3o. E quanto me devia o mundo em troca, talvez, de quanto me fora retirado! Ent\u00e3o escrevi a carta. Nela dava conta de algumas coisas que estava fazendo, que para mim, evidentemente, eram muito importantes. Devo lembrar-lhe de que se tratava de uma pesquisa sobre o Dem\u00f4nio, vivo e atuante no meu Vale do Para\u00edba. Trabalho sem t\u00e9cnica nenhuma. Acabei descobrindo que aquilo l\u00e1 era folclore &#8211; e tal ci\u00eancia me era desconhecida. Consultava livros misturando-os de maneira inconceb\u00edvel. Havia os mestres, sim, havia, mas em meio de muito refugo. Da linguagem nem \u00e9 bom falar. A sua resposta chegou dois dias depois, dois dias, n\u00e3o mais, escrita \u00e0 m\u00e3o, num cursivo elegante, correta, certinha, voc\u00ea me tratando de Senhora Dona. E ali vinha uma grande li\u00e7\u00e3o de honestidade intelectual: \u201cMuita gente pensa\u201d \u2013 dizia voc\u00ea \u2013 \u201cque Folclore \u00e9 pra gente se divertir.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O pior \u00e9 que estava mesmo me divertindo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fui \u00e0 sua casa. Voc\u00ea me convidou. Leu o que eu escrevi e disse: <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2018Essa linguagem&#8230;\u2019\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois foi assim. Ruth, convidada, bateu \u00e0 porta da casa na Rua Lopes Chaves, e M\u00e1rio de Andrade a recebeu. Viu o trabalho, elogiou, corrigiu e orientou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cVoc\u00ea tinha percebido, creio, que eu n\u00e3o era de muito falar. Reescrevi tudo. Alinhei considera\u00e7\u00f5es. Conduzi racioc\u00ednio. Terminava com uma pergunta: \u201cEst\u00e1 claro o entrosamento de tradi\u00e7\u00f5es?\u201d Voc\u00ea leu tudo. At\u00e9 o fim, atento, minucioso. Voltou a uma p\u00e1gina j\u00e1 lida. Ergueu aqueles olhos castanhos, insond\u00e1veis. Confirmou, como se fosse o fim de uma conversa: \u201cEst\u00e1 claro.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rio de Andrade n\u00e3o chegou a ver o livro pronto, porque morreu em 1945. Ruth preferiu dedicar mais tempo \u00e0s corre\u00e7\u00f5es sugeridas e acabou lan\u00e7ando, antes, o seu romance \u201c\u00c1gua Funda\u201d, uma doce e tr\u00e1gica hist\u00f3ria de amor. O livro fez sucesso instant\u00e2neo, e chamou a aten\u00e7\u00e3o de Antonio Candido, Nelson Werneck Sodr\u00e9 e Guimar\u00e3es Rosa, entre outros escritores e cr\u00edticos que escreveram sobre ele. Naquele mesmo ano, Ruth iniciou o curso de Letras Cl\u00e1ssicas da USP, em S\u00e3o Paulo, especializando-se em grego e latim, l\u00edngua e literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1950, quando ent\u00e3o lan\u00e7ou o livro \u201cFilhos do Medo\u201d, essa ampla pesquisa folcl\u00f3rica sobre o diabo e todas as manifesta\u00e7\u00f5es demon\u00edacas no imagin\u00e1rio do homem do Vale do Para\u00edba, a publica\u00e7\u00e3o lhe valeu um verbete na \u201cEncicl\u00f3p\u00e9die Fran\u00e7aise de la Pl\u00e9iade\u201d, publicada pela Editora Gallimard, sendo Ruth Guimar\u00e3es a \u00fanica escritora latino-americana a receber esta distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O psiquiatra e intelectual Os\u00f3rio C\u00e9sar, que fora casado com Tarsila do Amaral e que dirigiu por mais de 40 anos o Hospital Psiqui\u00e1trico Juqueri, em Franco da Rocha, escreveu sobre \u201cOs Filhos do Medo\u201d, no Jornal de Not\u00edcias, edi\u00e7\u00e3o de 21\/01\/1951:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cRuth Guimar\u00e3es, autora de \u201c\u00c1gua Funda\u201d, aparece agora com um novo livro \u2013 \u201cOs Filhos do Medo\u201d. Enquanto o primeiro \u00e9 uma hist\u00f3ria singela e bem contada de certos aspectos da vida rural, o segundo \u00e9 um livro de pesquisa folcl\u00f3rica nacional. Este livro de Ruth Guimar\u00e3es j\u00e1 era esperado h\u00e1 algum tempo, pois sab\u00edamos que estava colhendo dados sobre certas tradi\u00e7\u00f5es do nosso povo. Ruth Guimar\u00e3es conseguiu mostrar nesta obra que a Editora Globo acaba de editar, um estudo valioso e uma preciosa coleta de crendices e supersti\u00e7\u00f5es. Entre n\u00f3s, o material \u00e9 grande e pouco estudado. Tempos atr\u00e1s, sobre esse mesmo assunto, estudamos certas cren\u00e7as das popula\u00e7\u00f5es nordestinas sob o ponto de vista<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>psiqui\u00e1trico. \u201cOs Filhos do Medo\u201d vem proporcionar n\u00e3o somente uma fonte de <\/em><em>consulta aos estudiosos do nosso folclore como tamb\u00e9m recolher nossas tradi\u00e7\u00f5es populares, algumas tendentes a desaparecer, outras a se deturparem. A coleta feita foi criteriosa e bem orientada e, com este livro, vem a autora trazer importante contribui\u00e7\u00e3o ao folclore nacional.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso lembrar que as t\u00e9cnicas de cita\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica vigentes em 1950 eram diferentes das utilizadas atualmente. Optamos por manter, neste texto atualizado, a forma original de cita\u00e7\u00f5es da primeira edi\u00e7\u00e3o \u2013 ao longo do texto, entre par\u00eanteses. Respeitamos, tamb\u00e9m, a inser\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas das quais a autora certamente fez anota\u00e7\u00f5es, nas suas exaustivas leituras, esquecendo-se (n\u00e3o podemos ignorar que come\u00e7ou o livro quando contava apenas vinte anos de idade!) de registrar cidade, editora ou data de publica\u00e7\u00e3o. Embora tiv\u00e9ssemos buscado, em pesquisas na Internet, completar as informa\u00e7\u00f5es da bibliografia utilizada, n\u00e3o logramos preencher algumas lacunas. Esse aspecto formal, por\u00e9m, n\u00e3o invalida a qualidade da pesquisa realizada pela autora, e optamos por manter as refer\u00eancias, mesmo que incompletas, ao final desta edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outrossim, respeitamos algumas corre\u00e7\u00f5es registradas \u00e0 m\u00e3o, pela pr\u00f3pria Ruth, numa leitura cr\u00edtica que empreendeu sobre este \u201cOs Filhos do Medo\u201d, por volta do ano 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c1gua Funda\u201d e \u201cOs Filhos do Medo\u201d foram os primeiros de mais de 50 livros,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">de contos, pesquisas folcl\u00f3ricas, tradu\u00e7\u00f5es do franc\u00eas e do latim, e pe\u00e7as de teatro. Foi professora de grego, latim e l\u00edngua portuguesa durante 35 anos em col\u00e9gios estaduais e faculdades privadas. E ainda conseguiu tempo de fazer o curso de Dramaturgia e Cr\u00edtica Alfredo Mesquita. De produzir reportagens para a Revista Quatro Rodas e Revista do Globo. E de escrever, por anos e anos, cr\u00f4nicas nos jornais Folha de S. Paulo e ValeParaibano. E de integrar o Conselho Estadual de Cultura, ao lado de Inezita Barroso. E de promover exposi\u00e7\u00f5es de manifesta\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicou o primeiro trabalho infantil em 1972, pela Editora Cultrix. Foi o livro \u201cLendas e F\u00e1bulas do Brasil\u201d, com 24 hist\u00f3rias populares da regi\u00e3o Sudeste do Brasil, que recontou deliciosamente. O livro foi reeditado pelo C\u00edrculo do Livro em 1989, na cole\u00e7\u00e3o Cl\u00e1ssicos da Inf\u00e2ncia. Escreveu outros, como \u201cHist\u00f3rias de on\u00e7a\u201d e \u201cHist\u00f3rias de jabuti\u201d. O livro mais recente foi \u201cCalidosc\u00f3pio \u2013 a saga de Pedro Malazartes\u201d. A pesquisa, que tomou quase uma d\u00e9cada, \u00e9 uma espetacular colet\u00e2nea de hist\u00f3rias populares (especialmente em cidades dos Estados de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais e na regi\u00e3o sul-fluminense) sobre esse her\u00f3i p\u00edcaro brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2008, j\u00e1 aos 88 anos de idade, tornou-se a primeira escritora negra a integrar a Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira de n\u00famero 22. Conviveu com escritores da maior import\u00e2ncia no Brasil e no mundo, e que dedicaram a ela amizade e admira\u00e7\u00e3o: Lygia Fagundes Telles, Antonio Candido, Jorge Amado, Maur\u00edcio de Sousa, Tatiana Belinky, Osman Lins, Marcos Rey e muitos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cr\u00f4nica escrita pouco tempo depois da posse, intitulada \u201cEntardeceres\u201d, Ruth contou um pouco de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cFui escolhida certamente pelo destino para escrever sobre velhice. de tal maneira se colocaram as condi\u00e7\u00f5es para que eu soubesse mais do que cabalmente, intimamente, do que estou falando. Fiquei \u00f3rf\u00e3 de pai e de m\u00e3e muito cedo, e fui acolhida por meus av\u00f3s maternos, j\u00e1 bem idosos, pois minha m\u00e3e era a ca\u00e7ula de onze filhos. Minha av\u00f3 era uma curiboca, mesti\u00e7a de preto, \u00edndio e portugu\u00eas, e desde pequena eu a encontrei em pleno processo de envelhecimento, com uma orla azulada em torno dos olhos escuros, cabelos grisalhos, usava pr\u00f3tese dentaria, e sua cor era de um pardo acinzentado. Ela pr\u00f3pria n\u00e3o sabia que idade tinha, cozinhava, lavava a toda a roupa da casa. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><em>Eram muitas pessoas, incluindo cinco netos que lhe ca\u00edram em casa com a morte da filha, o mais novo com dois anos. M\u00e9dico n\u00e3o entrava em nossa casa. A av\u00f3 conseguia resolver todos os casos de acidentes da crian\u00e7ada, como pisar no prego e no caco de vidro, arrancar a unha do ded\u00e3o quando se trope\u00e7ava, cair do cavalo que se montava em pelo, mordida de cachorro, sarna de carrapato, ju\u00e7\u00e1 por motivo de virar cambalhota nos montes de palha de arroz e outras desventuras nossas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><em>Quanto a ela, nunca a vi doente, de cama, embora tivesse reumatismo deformante nas duas m\u00e3os e nos bra\u00e7os, uma hist\u00f3ria antiga de doen\u00e7a card\u00edaca, e j\u00e1 estivesse muito desgastada, a pobre, de viver e sofrer. Mas ningu\u00e9m podia dizer que tinha visto um s\u00f3 dia nh\u00e1 Hon\u00f3ria doente. Fazia longas caminhadas aos lugares de peregrina\u00e7\u00e3o, comia bem, dormia bem. Se o reumatismo a martirizava, nunca lhe ouvi um ai. Gostava de roupas de colorido <\/em><em>vivo, estampadas com flores e era costume seu mexer as panelas cantando umas cantiguinhas da ro\u00e7a, daqueles velhos tempos. Contava longas hist\u00f3rias, em noites de frio, sentada num banco em redor do testo com brasas, os netos em volta. Tinha r\u00edgidos princ\u00edpios e a m\u00e3o leve no cocorote no alto da cabe\u00e7a. E \u00e1gil na varada, quando necess\u00e1rio. A casa era limpa, clara, aberta, ningu\u00e9m pedisse um prato de comida que n\u00e3o levasse. \u00c9ramos pobres, limpos, alegres. Sem queixumes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><em>Meu av\u00f4 era portugu\u00eas. Imigrou para o Brasil aos 14 anos, sozinho, recomendado ao capit\u00e3o do navio que o trouxe. Aos 19 anos voltou \u00e0 santa terrinha para se casar com a conversada que deixara l\u00e1. Trouxe-a consigo, ela morreu de febre amarela no Rio de Janeiro. Voltou para Minas, na Zona da Mata e ali encontrou aquela que foi a companheira at\u00e9 que a morte os separasse: minha av\u00f3 Hon\u00f3ria. Meio judeu pelo lado da m\u00e3e, era alto, magro, forte, rubicundo, trabalhou em servi\u00e7os dur\u00edssimos, foi lenhador, taverneiro no Rio de Janeiro, depois guarda-chaves da Central do Brasil e seria ferrovi\u00e1rio o resto da vida.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><em>N\u00e3o sei se consegui dar a ideia de que cresci entre velhos que n\u00e3o eram velhos no sentido pejorativo da palavra, mas gente que caminhava valentemente para o arremate dos males, sem os achaques, sem desfalecimentos e trabalhando sempre para cumprir at\u00e9 o fim sua tarefa\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ruth morreu em 21 de maio de 2014. Mas sua obra permanece. Cumpriu sua tarefa. E, como sua obra, Ruth \u00e9 imortal. Assim como a senhora, protagonista de uma de suas hist\u00f3rias, que mandou construir uma igreja de pedra \u2013 pelos favores dos anjos, viveria tanto quanto durasse a igreja. A igreja que construiu est\u00e1 l\u00e1, firme. Ela tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas hist\u00f3rias que Ruth contou, numa linguagem de av\u00f3 para os netos, sua prosa \u00e9 t\u00e3o l\u00edmpida e serena que parece que ouvimos o crepitar da madeira na fogueira do quintal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Joaquim Maria Botelho \u00e9 jornalista e escritor. Presidiu a UBE \u2013 Uni\u00e3o Brasileira de Escritores entre 2010 e 2015. \u00c9 filho de Ruth Guimar\u00e3es, autora de \u201cOs Filhos do Medo\u201d.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PREF\u00c1CIO PARA UM LIVRO LIBERTADOR Joaquim Maria Botelho Este livro recupera manifesta\u00e7\u00f5es do medo, um dos quatro gigantes da alma, no dizer de Mira y Lopes. Gnomos, duendes, assombra\u00e7\u00f5es, sacis, mulas sem cabe\u00e7a, diabos e dem\u00f4nios, envolvidos nas mais diversas e arrepiantes situa\u00e7\u00f5es que o povo se encarrega de fazer perdurar na mem\u00f3ria dos descendentes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":39,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,3],"tags":[],"class_list":{"0":"post-29","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-sem-categoria","8":"category-textos-blog","10":"post-with-thumbnail","11":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29"}],"version-history":[{"count":11,"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":110,"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29\/revisions\/110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}