{"id":44,"date":"2021-02-27T18:52:04","date_gmt":"2021-02-27T21:52:04","guid":{"rendered":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/?p=44"},"modified":"2021-05-21T19:09:17","modified_gmt":"2021-05-21T22:09:17","slug":"o-vale-do-paraiba-em-forma-de-pepitas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/o-vale-do-paraiba-em-forma-de-pepitas\/","title":{"rendered":"O VALE DO PARA\u00cdBA EM FORMA DE PEPITAS"},"content":{"rendered":"\r\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-49 alignleft\" src=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ruth-300x207.jpg\" alt=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" width=\"300\" height=\"207\" title=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" srcset=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ruth-300x207.jpg 300w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ruth.jpg 635w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Ruth Guimar\u00e3es vive dizendo que quer arranjar tempo para se dedicar \u00e0 bruxaria. Ela \u00e9 uma bruxa assumida, daquelas que cozinham po\u00e7\u00f5es encantadas em caldeir\u00f5es de ferro e panelas de pedra, que curam doen\u00e7as com mezinhas, tinturas e extratos de ervas medicinais, das que arranjam situa\u00e7\u00f5es ruins com simpatias, rezas fortes, palavras m\u00e1gicas. Ruth vive sem tempo, mas j\u00e1 \u00e9 uma bruxa \u2013 a bruxa boa que o folclore valeparaibano representa nas suas hist\u00f3rias como a simp\u00e1tica velhinha que ensina o caminho \u00e0s crian\u00e7as perdidas, que destr\u00f3i com artimanhas geniais os monstros para deixar passar os pr\u00edncipes que v\u00e3o, por sua vez, salvar as princesas transformadas em r\u00e3s e as donzelas amaldi\u00e7oadas pelas feiticeiras malvadas.<br \/><br \/>\u00c9 assim que Ruth quer continuar vivendo neste Vale do Para\u00edba que ela conta e reconta nos seus escritos deliciosos, pesquisados com o carinho de quem garimpa brilhantes. Na sua calma de cachoeirense, Ruth vem abrindo a alma, h\u00e1 71 anos, para ser o relic\u00e1rio vivo das informa\u00e7\u00f5es e da cultura valeparaibanas.<br \/><br \/>Ruth \u00e9 simples como a sua gente. Humilde como suas hist\u00f3rias. S\u00e1bia como seus av\u00f3s. Tem o do magist\u00e9rio e o pratica pelo exemplo, pelo comportamento, pela for\u00e7a de car\u00e1ter. Foi menina moleque, de nadar em represa, enforcar aulas para ler romances, fazer traquinagens com os animais, correr, brincar, ser. Foi chefe de fam\u00edlia muito mo\u00e7a, cuidando de tr\u00eas irm\u00e3os mais novos, mourejando o sustento de todos na S\u00e3o Paulo dos anos quarenta, acumulando dois e tr\u00eas trabalhos com o curso de Letras Cl\u00e1ssicas da Universidade de S\u00e3o Paulo e um aprendizado de literatura com mestres como M\u00e1rio de Andrade, Monteiro Lobato, Amadeu Amaral. Cedo escreveu seu primeiro romance: \u201c\u00c1gua Funda\u201d, um relato mais-que-perfeito do tipo popular valeparaibano. Guimar\u00e3es Rosa lhe dedicou, depois de ler \u201c\u00c1gua Funda\u201d, em manuscrito bilhete, o apelido de parenta minha. Foi cronista do jornal \u201cFolha de S\u00e3o Paulo\u201d, intercalando a coluna com Cec\u00edlia Meirelles, Carlos Heitor Cony e Padre Vasconcelos. Comentou literatura no Rodap\u00e9 Liter\u00e1rio do jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d. Biografou personalidades como Cristo, Lesseps, Valdomiro Silveira e Buda. Estrela da Editora Cultrix com trabalhos de f\u00f4lego como o \u201cDicion\u00e1rio da Mitologia Grega\u201d, \u201cAs M\u00e3es na Lenda e na Hist\u00f3ria\u201d, \u201cL\u00edderes Religiosos\u201d, \u201cLendas e F\u00e1bulas do Brasil\u201d e dezenas de outros. S\u00e3o mais de 40 trabalhos de pesquisa, peda\u00e7os de amor cada um deles. Tradu\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas, do franc\u00eas, espanhol, italiano, grego e latim. \u00c9 de sua lavra a bel\u00edssima vers\u00e3o do \u201cAsno de Ouro\u201d, de Apuleio.<br \/><br \/>Ruth n\u00e3o para. Dorme quatro horas por noite e l\u00ea o que pode, tudo o que pode, o mais que pode. Tem um livro rascunhado, outro em produ\u00e7\u00e3o e um terceiro na cabe\u00e7a. Tem sido assim, nos \u00faltimos cinquenta anos. Que o digam seus milhares de alunos, que guardam dela ensinamentos de arte, de cultura, de vida. Ruth tem a qualidade singular de n\u00e3o passar despercebida. Ningu\u00e9m consegue ficar indiferente ao seu jeito calmo e seguro. Muito menos \u00e0 sua impressionante capacidade de trabalho. Um capinador seu empregado costumava se queixar dela, dizendo que ela era a pessoa que havia inventado o trabalho.<br \/><br \/>Cada trabalho seu tem um sentido pedag\u00f3gico, exemplar, de resgate das coisas do povo. Sua melhor pesquisa, que chamou de \u201cFilhos do Medo\u201d, recupera todas as manifesta\u00e7\u00f5es desse gigante da alma, no dizer de Mira Y Lopez. Gnomos, duendes, assombra\u00e7\u00f5es, sacis, mulas-sem-cabe\u00e7a, diabos e dem\u00f4nios, envolvidos nas mais diversas e arrepiantes situa\u00e7\u00f5es que o povo se encarrega de fazer perdurar na mem\u00f3ria dos descendentes pelo raconto, pela tradi\u00e7\u00e3o oral. Mestra Ruth \u00e9 especialista em escrever como quem fala ao filho ou ao amigo, de forma singela e clara e simples e objetiva. E linda. E s\u00e1bia. Seu jeito f\u00e1cil de contar a maior das complexidades d\u00e1 sabor de descoberta \u00e0 leitura. Ela explica e a gente entende, como bem deve ser o repassar de informa\u00e7\u00f5es. Neste ponto ela tangencia o jornalismo, e a ele presta inestim\u00e1vel servi\u00e7o, completando aspectos que a not\u00edcia n\u00e3o apura. Aprendizado de muitas reportagens para a \u201cRevista do Globo\u201d, \u201cQuatro Rodas\u201d, jornal \u201cValeparaibano\u201d e \u201cRevista Realidade\u201d.<br \/><br \/>E, pois, se a palavra como signo lingu\u00edstico \u00e9 arbitraria, a imagem tem por vezes que ser buscada para conotar a informa\u00e7\u00e3o. E Ruth encontrou no primo Jos\u00e9 o parceiro e c\u00famplice para o trabalho de duas vidas. Casaram-se. Tiveram nove filhos. Mas continuam entregando \u00e0 vida novos rebentos de cria\u00e7\u00e3o, na forma de reportagens, pesquisas folcl\u00f3ricas, exposi\u00e7\u00f5es, livros, aulas. S\u00e3o professores, os dois. S\u00e3o garimpeiros de brilhantes. Jos\u00e9 desenha com a luz, em preto e branco, e fotografa as belezas das gentes e das coisas das gentes. O casal revisita a dial\u00e9tica de texto e imagem de Roland Barthes, nessa parceria. E prossegue Amadeu Amaral, recupera Valdomiro Silveira, revive M\u00e1rio de Andrade, resgata Guimar\u00e3es Rosa.<br \/><br \/>Neste registro do cotidiano de alguns lugares do Vale do Para\u00edba, as ler\u00e9ias dos morros e das serras, o clima dos mercados, o rosto das pessoas, as m\u00e3os dos artes\u00e3os, os trabalhadores, os lugares e seus ocupantes. Ruth e Jos\u00e9, m\u00e1gicos, nos emprestam o sabor de rever coisas nossas, caipiras, ricas. Mais que m\u00e1gicos, Ruth e Jos\u00e9, meus pais, bruxos, amados, nos remetem \u00e0 singeleza do que verdadeiramente \u00e9 importante. Mais n\u00e3o lhes poderemos pedir.<br \/><br \/>Joaquim Maria Guimar\u00e3es Botelho<br \/>In Cr\u00f4nicas Valeparaibanas, junho de 1991.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruth Guimar\u00e3es vive dizendo que quer arranjar tempo para se dedicar \u00e0 bruxaria. 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