{"id":66,"date":"2021-04-15T12:17:05","date_gmt":"2021-04-15T15:17:05","guid":{"rendered":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/?p=66"},"modified":"2021-05-21T19:07:43","modified_gmt":"2021-05-21T22:07:43","slug":"catedral-submersa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/catedral-submersa\/","title":{"rendered":"Catedral Submersa"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-67\" src=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/945724_194312350718198_1043851520_n-300x197.jpg\" alt=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" width=\"300\" height=\"197\" title=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" srcset=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/945724_194312350718198_1043851520_n-300x197.jpg 300w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/945724_194312350718198_1043851520_n-768x505.jpg 768w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/945724_194312350718198_1043851520_n.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">De dia n\u00e3o se v\u00ea. As \u00e1guas tremem tanto, arrepiadas pelo vento e o sol \u00e9 t\u00e3o fino e coruscante!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Os olhos est\u00e3o demasiadamente cheios de claridade e das cores, de sol e de cintila\u00e7\u00f5es. \u00c9 muita a luz. N\u00e3o d\u00e1 para ver. Depois, h\u00e1 muito que contemplar, longe e perto. Como tinta derramada, pelo pasto, se estende o verde-abundante do capim-gordura, capim membeca, capim melado, onde engordam e se arredondam, com o pelo lustroso, as vacas do Joaquim Pedro. Temos que olhar para os ingazeiros que se curvam gentis, cumprimentando. E temos que olhar para os chor\u00f5es que num lento gesto de m\u00e1goa lamentam n\u00e3o sei que desditas da negra sorte.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Pela manh\u00e3 passa o bando de p\u00e1ssaros azuis das escolas. Andorinhas do mar, em azul e branco, muito g\u00e1rrulas e muito chilreantes. As marrequinhas do banhado erguem voo aos bandos, ruflando as asas, desaforadas: Qual! Qual! N\u00e3o d\u00e1 para reparar no espelho da \u00e1gua tranquila.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Passam os leiteiros em carro\u00e7as, sacolejando as latas. E os buracos de cangalhas escuras, e orelhas em p\u00e9. E boiadas em atropelo, animais esbarrando uns nos outros, sujos, cascos barrentos, orelhas pendentes. E o boiadeiro com a boca no berrante, arrancando t\u00e3o sentida queixa! A poeira se ergue, redemoinha, o vento a leva. Quem vai reparar no espelho da \u00e1gua tranquila?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u00c0 tarde o passo \u00e9 mais lento, o ar mais sereno, as cintila\u00e7\u00f5es se apagaram num tom neutro, entre cinza e lil\u00e1s, e as \u00e1guas se alisam, m\u00farmuras. Os lambaris feitos de prata e sol se esconderam no fundo. Tardinha bem tardezinha de mugidos longos nas pradarias, os passos na ponte, tem um sentido de retorno e um jeito de fadiga. Igreja, n\u00e3o \u00e9 nenhuma, por\u00e9m a matriz de Santo Antonio, muito l\u00edrico, toda clara e alongada, de pontas agudas, em estilo romano, est\u00e1 sobre a colina como uma grande gar\u00e7a prestes a desferir o voo. Come\u00e7am a se delinear na \u00e1gua quieta os seus contornos. Ainda muito esfumados, muito apagados. Quando o martim-pescador ro\u00e7a na \u00e1gua (que reflete um sol de sangue) a ponta reta da asa, ela estremece um pouco. Assim como estremece quando o pescador atrasado para o jantar joga pela \u00faltima vez a linha. \u00c9 \u00e0 noitinha que percebemos afinal que h\u00e1 uma catedral submersa. Quando se acendem as luzes. Dentro da \u00e1gua negra, mais espessa n\u00e3o sei como, calada que impressiona, a igreja surge tra\u00e7ada em pontas de luz. Nem um brilho, nem uma asa, nem um murm\u00fario. Amarelo sobre o negro, a catedral no fundo d\u2019\u00e1gua mais real e mais bela que a que vemos todo o dia, todos os dias, o ano inteiro, gar\u00e7a branca na colina. Ah! \u00c9 mister que a noite venha, que venha a treva, para vermos. Submersa na noite da aus\u00eancia a catedral qu\u00e3o bela se destaca, s\u00f3, serena, com um brilho lustral de \u00e1gua ou de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">(Nem uma cintila\u00e7\u00e3o, nem uma asa, nem um murm\u00fario&#8230;)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De dia n\u00e3o se v\u00ea. As \u00e1guas tremem tanto, arrepiadas pelo vento e o sol \u00e9 t\u00e3o fino e coruscante! Os olhos est\u00e3o demasiadamente cheios de claridade e das cores, de sol e de cintila\u00e7\u00f5es. \u00c9 muita a luz. N\u00e3o d\u00e1 para ver. Depois, h\u00e1 muito que contemplar, longe e perto. 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