{"id":96,"date":"2021-05-21T18:58:54","date_gmt":"2021-05-21T21:58:54","guid":{"rendered":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/?p=96"},"modified":"2021-05-21T19:02:16","modified_gmt":"2021-05-21T22:02:16","slug":"matinada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/matinada\/","title":{"rendered":"Matinada"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-100 alignleft\" src=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Botelho-Netto-1415-300x136.jpg\" alt=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" width=\"300\" height=\"136\" title=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" srcset=\"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Botelho-Netto-1415-300x136.jpg 300w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Botelho-Netto-1415-1024x466.jpg 1024w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Botelho-Netto-1415-768x349.jpg 768w, http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Botelho-Netto-1415.jpg 1359w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>De manh\u00e3zinha, alguma coisa estava acontecendo, no ar, nas ruas, no c\u00e9u. O que havia? Qualquer coisa inusitada. Rumor em demasia. Um susto, parecia. Canto em cascata de duas qualidades diferentes de pios. De uma parte um susto, um protesto. Mas escutem: que barulho \u00e9 esse?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma senhora matinada. Eram as maracan\u00e3s, uma esp\u00e9cie de papagainho sem gra\u00e7a, barulhenta gritadeira, madrugando para incomodar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9u est\u00e1 sereno, de um azul consolador.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">De repente, n\u00e3o mais que de repente, a manh\u00e3zinha se encheu gloriosamente de uma barulhenta matinada.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que foi isso, gente? \u2013 indagou a Baita, saindo ao terreiro com as m\u00e3os em concha acima dos olhos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As coisas est\u00e3o mudadas, mas alguma coisa permanece. As coisas estavam muito mudadas. A luz, as sombras. O beijo quente do calor na pele. Aquele rev\u00e9rbero, nos olhos, quando o rio desliza e caminha. Por exemplo, as flores se oferecem em beleza e s\u00e3o um chamado. Temos que contempl\u00e1-las. Temos que aprender que \u00e9 primavera. O campo, o rio, o c\u00e9u, sempre conseguem contar que ainda \u00e9 primavera. E as maitacas, esse papagainho sem-vergonha, barulhento, pia, grita, martela, assobia, faz barulho com o bico e com as asas, n\u00e3o os deixa esquecer que \u00e9 primavera. Grandes voos, r\u00e1pidos, sincronizados, v\u00e3o marcando o compasso, que s\u00e3o oito horas, que \u00e9 manh\u00e3, que o dia \u00e9 claro que o sol aquece, que a vida \u00e9 uma dan\u00e7a de longos voos r\u00e1pidos, que a vida \u00e9 um voo. Que a vida \u00e9 a vida. E que \u00e9 m\u00fasica. E que s\u00e3o flores, s\u00e3o flores, s\u00e3o pios.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Foi a primavera, foram os pios. E que foi que perturbou a m\u00fasica dos maracan\u00e3s?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Geralmente sabemos as horas, quando o alegre bando desaparece para os lados da montanha, longe, t\u00e3o distante que a gente acaba n\u00e3o sabendo para onde v\u00e3o esses papagainhos&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hoje eles se atrasaram, perderam a hora. Perderam o ritmo. N\u00e3o nos ensinaram nada a prop\u00f3sito das floradas, nem do tempo, nem da vida. Nem do espa\u00e7o que \u00e9 preciso medir. Nem do trabalho de todos os dias, que \u00e9 preciso reafirmar que \u00e9 belo. Hoje as maracan\u00e3s v\u00e3o sem festa nem alegria. M\u00fasica n\u00e3o h\u00e1, mas um excesso de pios. Perderam at\u00e9 a hora da partida, que de costume acontece, ritmadamente. Se bem que em grandes gritos, que papagaio \u00e9 ave sem medida nem m\u00fasica, o grupo \u00e9 homog\u00eaneo. Cada um sabe o tom em que deve gritar quando deve gritar e por que deve gritar. E quando deve se perder no azul, longe, alto, esplendorosamente.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Entretanto n\u00e3o sabemos a raz\u00e3o da perturbadora quebra de ritmo desses p\u00e1ssaros t\u00e3o acostumados a um hor\u00e1rio igual, todos os dias de todas as semanas de todos os meses, e que n\u00e3o perdem a hora nunca, e t\u00eam um reloginho nas asas, nos pios, e preenchem o seu hor\u00e1rio como se Deus estivesse marcando para eles.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">E hoje est\u00e3o desafinados, fora do ritmo e fora do hor\u00e1rio&#8230; Que houve, afinal?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">E ent\u00e3o vejo, n\u00e3o mais que de repente, que meninos e adultos n\u00e3o chegando para o botequim mais freq\u00fcentado pelo pessoal dos passarinhos de gaiola. E entram muitos e saem, e falam em altas vozes e come\u00e7a a se delinearem pios sincopados, suaves, parece que uns respondendo a outros e s\u00e3o teimosos, rolam como cascatas, como escachoar de notas musicais, v\u00e3o e v\u00eam e recome\u00e7am, s\u00e3o macios, acariciantes, tamb\u00e9m recome\u00e7am em catadupa, mas sem aspereza. E, no entanto, sentimos que notas macias, repetidas, acariciantes, dezenas, centenas, nos fazem bem ao cora\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Que foi? Que houve?<\/div>\n<p><span style=\"text-align: justify;\">&#8211; A senhora n\u00e3o sabe? \u2013 pergunta um pequeno ainda com uma gaiola na m\u00e3o, onde um p\u00e1ssaro em que predomina o amarelo, se mata de tanto cantar. &#8211; Seu Tico da venda est\u00e1 fazendo um concurso de trinca-ferros.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De manh\u00e3zinha, alguma coisa estava acontecendo, no ar, nas ruas, no c\u00e9u. O que havia? Qualquer coisa inusitada. Rumor em demasia. Um susto, parecia. Canto em cascata de duas qualidades diferentes de pios. De uma parte um susto, um protesto. Mas escutem: que barulho \u00e9 esse? Uma senhora matinada. 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