{"id":2190,"date":"2023-06-01T14:42:14","date_gmt":"2023-06-01T17:42:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/?p=2190"},"modified":"2023-06-01T14:46:05","modified_gmt":"2023-06-01T17:46:05","slug":"artigo-no-jornal-da-ufrgs-destaca-obra-de-ruth-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/artigo-no-jornal-da-ufrgs-destaca-obra-de-ruth-guimaraes\/","title":{"rendered":"Artigo no jornal da UFRGS destaca obra de Ruth Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<h3>A literatura orgulhosamente negra e caipira da escritora &#8211; Por M\u00edrian Barradas<\/h3>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cE Joca \u00e9 esse trapo que anda a\u00ed. Virou andante. Um dia est\u00e1 aqui, outro dia n\u00e3o se sabe dele. Aquele sossega s\u00f3 com a morte. Assim mesmo, n\u00e3o sei. At\u00e9 em Curiango a praga acertou de ricochete. Enquanto o pai foi vivo, foi um cabresto para ela, mas depois que morreu\u2026 N\u00e3o pode contar com o marido e n\u00e3o \u00e9 mulher pra ficar sozinha. \u00c9 mo\u00e7a demais e \u00e9 bonita demais. Tudo no diacho dessa mulher faz a gente lembrar de correnteza. Tem o andar bamboleado e macio de veio d\u2019\u00e1gua. Tem uma risada de passarinho nascido perto da cachoeira. E o lustro daqueles olhos pretos \u00e9 ver lustro de jabuticaba bem madura, molhada de chuva\u201d<\/p>\n<p><cite>Trecho de\u00a0<em>\u00c1gua Funda<\/em><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>\u201c\u00c9 um romance, mas escrito como se fosse prosa fiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da mem\u00f3ria, ao jeito dos contadores de casos.\u201d \u00c9 dessa forma que Antonio Candido resume\u00a0<em>\u00c1gua Funda<\/em>\u00a0no pref\u00e1cio escrito para a segunda edi\u00e7\u00e3o da obra, publicada em 2003.<\/p>\n<div id=\"attachment_2191\" style=\"width: 416px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2191\" class=\"wp-image-2191\" title=\"Botelho Neto - D\u00e9cada de 70\" src=\"https:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-01-at-14.37.36-300x218.jpeg\" alt=\"Instituto Ruth Guimar\u00e3es\" width=\"406\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-01-at-14.37.36-300x218.jpeg 300w, https:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-01-at-14.37.36-1024x744.jpeg 1024w, https:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-01-at-14.37.36-768x558.jpeg 768w, https:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-01-at-14.37.36-1536x1116.jpeg 1536w, https:\/\/institutoruthguimaraes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-01-at-14.37.36.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 406px) 100vw, 406px\" \/><p id=\"caption-attachment-2191\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Botelho Neto &#8211; D\u00e9cada de 70<\/p><\/div>\n<p>Essa prosa fiada, que d\u00e1 ao leitor a sensa\u00e7\u00e3o de estar escutando as personagens, \u00e9 um dos aspectos mais aclamados do romance de Ruth Guimar\u00e3es (1920-2014). Nascida e criada em Cachoeira Paulista, cidade localizada quase na divisa com Minas Gerais, Ruth traz a\u00a0<em>\u00c1gua Funda\u00a0<\/em>um retrato do Brasil caipira sem cair em estere\u00f3tipos ou idealiza\u00e7\u00f5es. Usando seu lugar de fala como mulher negra e caipira, a autora se inspira na sua pr\u00f3pria vida na ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Com linguagem marcada pela oralidade, o romance \u00e9 repleto de descri\u00e7\u00f5es. \u201cA gente v\u00ea o caipira, aquele que \u00e9 ligado \u00e0 terra, as descri\u00e7\u00f5es da natureza, a gente v\u00ea bem o sentimento dela [da Ruth] de amar esse lugar. E a\u00ed tu vai ver na biografia dela que ela n\u00e3o sai desse lugar, ela fica ali. Esse \u00e9 o desejo dela: ver aquele c\u00e9u, ver aqueles p\u00e1ssaros, ver aquela flora\u2026 E a gente chega at\u00e9 a sentir o cheiro do ar puro\u201d, destaca a doutoranda em Letras pela UFRGS Ana dos Santos, que pesquisa literatura negra de autoria feminina.<\/p>\n<p>A obra \u00e9 escrita em um formato de conversa de um\/a narrador\/a com \u201cum mo\u00e7o\u201d. A doutoranda do departamento de Estudos Liter\u00e1rios da USP Cec\u00edlia Furquim defende que, na verdade, o\/a narrador\/a \u00e9 uma mulher. Ela explica que, ao longo do romance h\u00e1 diversas pistas que mostram que esse\/a narrador\/a \u00e9 algu\u00e9m da comunidade e que, ao mesmo tempo que tem familiaridade com a linguagem caipira, tamb\u00e9m possui educa\u00e7\u00e3o formal. \u201cA gente poderia dizer que a narradora \u00e9 um alterego da Ruth, porque ela tinha uma escolaridade, inclusive, excepcional para a \u00e9poca, para o fato de ser uma mulher negra\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Ana concorda que o\/a narrador\/a \u00e9 algu\u00e9m pertencente \u00e0 comunidade, mas tem d\u00favidas quanto ao g\u00eanero. \u201cPode ser uma narradora, mas o que me incomoda \u00e9 que o posicionamento desse narrador \u00e9 muito vago. Ele s\u00f3 diz \u2018na escravid\u00e3o era assim\u2019. E eu n\u00e3o sei se a Ruth respeitaria tanto assim o poder, porque, para mim, ela era muito ousada para a \u00e9poca\u201d, analisa. Afinal, Ruth era uma mulher negra, caipira e jovem \u2013\u00a0<em>\u00c1gua Funda\u00a0<\/em>foi publicado em 1946, quando ela tinha 26 anos.<\/p>\n<p>Seja com narrador ou narradora, a composi\u00e7\u00e3o do romance \u2013 fragmentada, uma esp\u00e9cie de \u201ccolcha de retalhos\u201d \u2013 \u00e9 a grande originalidade da obra. Cec\u00edlia aponta que, como isso n\u00e3o era comum na \u00e9poca, esse aspecto n\u00e3o foi bem recebido pela cr\u00edtica naquele momento. \u201cA gente pode dizer que essa composi\u00e7\u00e3o da obra \u2013 que na \u00e9poca do lan\u00e7amento foi alvo de cr\u00edticas \u2013 tem a ver com o fato de a Ruth ter juntado \u2018causos\u2019 que ela escutava, vivenciava\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em um depoimento concedido ao Museu Afro Brasil em 2007, Ruth comentou que essa composi\u00e7\u00e3o se inspirava no povo brasileiro.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cAssim como somos um povo mesti\u00e7o, todo cheio de misturas de todo jeito, a nossa literatura tamb\u00e9m \u00e9 toda feita de peda\u00e7os de textos, de arruma\u00e7\u00f5es aqui e ali\u201d<\/p>\n<p><cite>Ruth Guimar\u00e3es<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>A obra acontece em dois momentos temporais: a primeira parte do livro se passa cerca de 15 anos antes da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, na fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua; a segunda parte, entre os anos 1930 e 1940, na cidade de Pedra Branca. Apesar desse salto no tempo, o que se percebe no romance \u00e9 que aspectos como a explora\u00e7\u00e3o do caipira e a desigualdade permanecem intocados, fazendo uma esp\u00e9cie de desvelamento da estrutura colonial que permaneceu no Brasil.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cMudou a fase, mudou o s\u00e9culo, mudou de Monarquia para Rep\u00fablica, mas na \u00e1gua funda do Brasil se manteve a estrutura colonial\u201d<\/p>\n<p><cite>Ana dos Santos<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>Nesse sentido, em um dos trechos do livro \u00e9 inevit\u00e1vel lembrar de not\u00edcias recentes sobre casos de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o na\u00a0Serra\u00a0e na\u00a0Fronteira Oeste\u00a0ga\u00fachas. Em\u00a0<em>\u00c1gua Funda,\u00a0<\/em>um forasteiro sem nome chega a Pedra Branca para recrutar homens para trabalhar na abertura de estradas no sert\u00e3o, prometendo o pagamento de trinta mil r\u00e9is (um valor alto) por dia.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201c\u2013 E livre de despesas. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 bem livre de despesas. \u00c9 assim: todos os gastos correm por conta dos engenheiros. \u00c9 uma companhia grande. Depois o empregado paga aos poucos. Quando a gente entra, assina um contrato\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Assim \u00e9 bom. Mas a Companhia tem de tudo?<\/p>\n<p>\u2013 Tem. Armaz\u00e9m, loja e farm\u00e1cia, al\u00e9m de alojamento para o pessoal.<\/p>\n<p>\u2013 Tudo isso e os trinta por dia correndo\u2026\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Um dos personagens, Man\u00e9 P\u00e3o Doce, resolve aceitar a oferta. Volta, tempos depois, contando que precisou fugir do lugar, porque a situa\u00e7\u00e3o era diferente do prometido: al\u00e9m de trabalhar pesado, sem descanso e ouvindo ofensas do patr\u00e3o, os empregados eram pagos em vales, aceitos apenas no armaz\u00e9m da Companhia \u2013 que cobrava muito caro pelos produtos. Ao pedir as contas, o empregado descobre que deve ao patr\u00e3o pela viagem, pela esteira em que dormia, pelo alojamento, pela lavagem de roupa, al\u00e9m das compras no armaz\u00e9m \u2013 e s\u00f3 pode ir embora quando saldar a d\u00edvida. \u201cContando com tudo, ia meu ordenado e eu ainda ficava devendo uns dois meses de servi\u00e7o\u201d, reflete a personagem.<\/p>\n<p>O\/a narrador\/a de\u00a0<em>\u00c1gua Funda<\/em>\u00a0credita os tristes destinos dos personagens a uma praga lan\u00e7ada pela escravizada Joana. Para Ana, a praga \u00e9 uma met\u00e1fora para os 300 anos de escravid\u00e3o. \u201cEsse romance est\u00e1 fazendo uma cr\u00edtica \u00e0 escravid\u00e3o e ao p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, que manteve as coisas como est\u00e3o e, se elas est\u00e3o dando errado, \u00e9 porque n\u00e3o se resolveu isso l\u00e1 atr\u00e1s. \u00c9 o fantasma da escravid\u00e3o\u201d, conclui a pesquisadora.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-literatura-orgulhosamente-negra-e-caipira-de-ruth-guimaraes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-literatura-orgulhosamente-negra-e-caipira-de-ruth-guimaraes\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A literatura orgulhosamente negra e caipira da escritora &#8211; Por M\u00edrian Barradas \u201cE Joca \u00e9 esse trapo que anda a\u00ed. Virou andante. Um dia est\u00e1 aqui, outro dia n\u00e3o se sabe dele. Aquele sossega s\u00f3 com a morte. Assim mesmo, n\u00e3o sei. 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