O Instituto Ruth Guimarães faz parcerias para a divulgação do concurso de fotografia

A fotografia e a Educação

Como trabalhar as imagens, enquanto educadores, na era das redes sociais?
Em um mundo saturado de imagens, é urgente que nossas respostas a elas transcendam a mera emoção. De fato, sem uma orientação analítica, prevalece o fascínio, especialmente porque as imagens, retiradas de contexto, viralizam, tornando sua avaliação extremamente difícil. Todos os tipos de manipulação se tornam possíveis, visto que todos podem não apenas ver imagens diariamente, mas também reproduzi-las e disseminá-las. Hoje os espectadores são também produtores e distribuidores de imagens, especialmente os mais jovens. Em outras palavras, eles veem e são vistos, mas sobretudo, veem e mostram, criando fotos e vídeos que gostam de compartilhar. O indivíduo mostra a sociedade que ele conhece, mas que ao mesmo tempo todos querem ver.

Ruth Guimarães

Júnia Botelho do Instituto Ruth Guimarães, Cíntia Carbone coordenadora da educação e Isa Paula Evangelista Rosa Secretária da educação.

Existem várias leis que se baseiam em políticas de segurança pública para a prevenção da delinquência que levam em consideração as diferentes formas de interação, punindo “o ato de produzir, transportar ou disseminar por qualquer meio e em qualquer suporte uma mensagem de natureza violenta ou pornográfica ou que prejudique gravemente a dignidade humana”. Mas quem ensina as crianças e os adolescentes a distinguir essas imagens? Não estamos aptos a praticar os verbos ver olhar e enxergar. Não estamos praticando a análise de imagens.

Compreender implica: interessar-se pelas motivações dos criadores da imagem, questionar como pensaram e agiram, para entrar no espaço simbólico do saber. E, desta forma o indivíduo deixa de somente apertar um botão e passa a fazer uma escolha.

As escolas têm um papel a desempenhar na introdução dos jovens a essa abordagem reflexiva das imagens, especialmente porque cada vez mais crianças muito pequenas, a partir dos 6 ou 7 anos, estão expostas às redes sociais. Imagens aparecem inesperadamente em suas telas, e os jovens as consomem e compartilham indiscriminadamente, sem avaliar as mensagens apresentadas ou considerar as consequências de compartilhá-las.

A escola deve ajudar a capacitar os alunos a aprender a ler e analisar informações e imagens, aprimorar suas habilidades de pensamento crítico e formar suas próprias opiniões – habilidades essenciais para o exercício de uma cidadania informada e responsável em uma democracia. Nesse contexto, as atividades tendem a dissociar o “i” de “informação” do “i” de “imagem”. Isso se deve, sem dúvida, em parte, ao peso do verbal na instituição. O uso de imagens nas escolas não faz parte das normas do ensino e da pedagogia tradicionais, que são baseadas principalmente em textos escritos, onde há uma predominância de signos e discurso sobre a experiência direta e da inteligência abstrata sobre o conhecimento prático. A alfabetização midiática e informacional não é uma disciplina e a prática artística praticamente desapareceu dos programas de formação docente. Por isso o Instituto Ruth Guimarães foca na alfabetização midiática, pensando nos valores da imagem. Ou, dito de outra forma, pensar em ir além das habilidades linguísticas que são constantemente enfatizadas porque são consideradas essenciais para a inserção profissional dos jovens. Além disso, a polissemia das imagens ainda é frequentemente negligenciada, embora seja um sistema cujas sutilezas comunicam maneiras de ver, conhecer, compreender, mas também, por vezes, maneiras de não compreender…

O impacto das imagens em nós e em nossos filhos.

As imagens oferecem caminhos para a exploração, ao mesmo tempo que deixam o leitor livre para tirar suas próprias conclusões, e os professores – tradicionalmente detentores do conhecimento – se incomodam com essa perda de controle. No entanto, abrir as escolas para esse mundo tem implicações claramente políticas, permitindo que a alteridade se torne tangível e, assim, contribuindo para a educação cívica essencial para a vida em uma democracia.

Compreensão pela prática
É criando imagens que aprendemos a compreendê-las.
Nesse caso, a imagem se torna um método para abordar a imagem em sua diversidade fundamental. E embora as escolas nem sempre estejam inclinadas ou acostumadas a isso, é essencial adotar essa abordagem. Hoje, para a grande maioria das crianças, é o único lugar onde essa educação pode acontecer. As escolas devem fazer isso, mesmo que signifique mudar seus hábitos e mentalidades. O Instituto Ruth Guimarães defende essa dimensão experimental do fazer, ou aprender fazendo, que permite aos alunos compreender os códigos visuais em ação, testando-os concretamente. Mas esse método não faz parte do sistema escolar. Mas podemos sair do núcleo comum de habilidades e conhecimentos e da cultura comum. Passamos a transmitir mais do que o conhecimento comum, compartilhando com as crianças e com todos os indivíduos que compõem a comunidade algo que leva a uma função diretamente social e política.

Ensinar a enxergar, em uma era de desinformação e notícias falsas, por meio da experiência prática, permite que as crianças interajam com esse meio de comunicação de uma maneira singular, sem aceitar passivamente uma interpretação predeterminada. Ela introduz a “indisciplina” inerente ao conhecimento emergente, ainda em desenvolvimento e instável, livre da escuta reverente e fora do âmbito do conhecimento e da compreensão estabelecidos.

Essa prática é, por vezes, arriscada, pois pode levar a associações inesperadas e até violentas. No entanto, oferece um espaço dinâmico para experimentação, adaptado a uma realidade em constante transformação. Esse espaço excepcional, onde a transmissão ocorre por meios que não o discurso e o conhecimento – às vezes sem discurso algum -, é ideal para lidar com informações que são um organismo vivo.

Essa abordagem em sala de aula rompe finalmente com a descoberta cada vez mais solitária de imagens na internet. Ela nos leva a questionar como o que recebemos molda nossas escolhas e ações, e desenvolve conhecimento que fomenta o engajamento reflexivo. Impede a aceitação cega, o tipo de distanciamento crítico que leva a aceitar e repetir mensagens sem interpretação.

Ao se depararem com imagens, as crianças precisam aprender a se descentralizar, apresentando uma pluralidade de pontos de vista e questionando sua natureza como trechos isolados de um todo maior.

O Instituto Ruth Guimarães está oferecendo o “extracurricular”, o apoio de formação, a chance de fazermos dessa parceria um ato concreto. Infelizmente, os professores ainda se sentem muito desconfortáveis em introduzir essa ética da observação ao discutir práticas de informação e mídia com os alunos. Eles próprios não foram educados sobre mídia e informação e ficam paralisados diante da ideia de lidar com as dificuldades relacionadas a questões sociais urgentes.

No entanto, devemos aceitar trazer o mundo informacional dos adolescentes de hoje para as escolas porque, como afirma a filósofa Marie-José Mondzain, “não saber como iniciar um olhar para a própria paixão de ver, não ser capaz de construir uma cultura de observação, é aí que começa a verdadeira violência contra aqueles que entregamos indefesos ao apetite voraz da visibilidade”.

O INRG agora é ponto de Cultura regulamentado pela Política Nacional de Cultura Viva

Instituto Ruth Guimarães, Ponto de Cultura!

https://culturaviva.cultura.gov.br/certificado/34997/

Cachoeira Paulista tem um Ponto de Cultura, o Instituto Ruth Guimarães, estabelecido desde 2023. Ponto e Pontão de Cultura são iniciativas que fazem parte da Política Nacional de Cultura Viva, criada pelo Ministério da Cultura (MinC) e regulamentada em 2015 pela Lei Cultura Viva.

Os Pontos de Cultura são entidades sem fins lucrativos, grupos ou coletivos — com ou sem CNPJ — que desenvolvem atividades culturais contínuas em suas comunidades. Já os Pontões de Cultura exercem função articuladora: são entidades culturais ou instituições públicas de ensino que coordenam e fortalecem redes de Pontos e outras iniciativas culturais, promovendo mobilização, formação e intercâmbio.

Desde a regulamentação da lei, grupos e instituições podem se autodeclarar como Ponto ou Pontão de Cultura por meio de certificação simplificada. A certificação não garante repasse automático de recursos, mas funciona como reconhecimento institucional e facilita o acesso a editais e parcerias. Quando selecionados em chamadas públicas, podem firmar parceria com o poder público por meio do Termo de Compromisso Cultural (TCC), mecanismo que simplificou os processos de prestação de contas.

Atualmente, a política reúne mais de 4,5 mil iniciativas em mais de mil municípios do Brasil, alcançando cerca de 8 milhões de pessoas, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A atuação é diversa e abrange cultura popular, indígena, quilombola, cultura digital, produção urbana e periférica, entre outras expressões artísticas e culturais.

O Instituto Ruth Guimarães nasceu em 2018, com o objetivo não somente de propagar a obra da escritora e do fotógrafo Zizinho Botelho, mas também  de oferecer à comunidade um espaço para mostrar suas manifestações culturais. A cidade de Cachoeira Paulista está carente de espaços culturais: o teatro municipal está em reforma, sem data de reabertura, a estação ferroviária foi tombada, mas vândalos estão saqueando tudo o que podem, o ginásio municipal que já foi usado como palco de festivais de dança, de música, hoje ali só podem ser realizados eventos estritamente ligados ao esporte, o auditório está abandonado e não há perspectivas de realização de reformas. Somente o que resta são as praças, mal conservadas e mal frequentadas. O Instituto Ruth Guimarães se esforça para oferecer cultura o ano todo, apesar de ser uma entidade sem fins lucrativos e, portanto, sem recursos financeiros para o básico.

O Fórum Nacional de Pontos e Pontões de Cultura é um espaço fundamental de participação social e articulação política da Política Nacional de Cultura Viva, reunindo coletivos para construir diretrizes, compartilhar experiências e fortalecer a rede em todo o Brasil. Esses encontros, organizados em instâncias municipais, estaduais e nacionais, são cruciais para a democracia cultural e incidência em políticas públicas.

O Instituto Ruth Guimarães vai participar do 4ª Fórum Paulista dos Pontos de Cultura, o maior e mais importante encontro da rede de Pontos e Pontões de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta edição de 2026, tem como tema:  Cultura Viva Tecendo o Bem Viver.
O Fórum acontecerá de 26 de fevereiro a 1º de março, em Campinas, reunindo iniciativas culturais de todo o estado para encontros, fórum, debates, formações, vivências, articulações e mostra artística da Política Nacional Cultura Viva no Estado de São Paulo.

O Instituto Ruth Guimarães participa para se atualizar e se engajar com mais responsabilidade e mais eficácia nos seus propósitos de ser um centro cultural ativo em sua comunidade.

Ruth Guimarães

Ruth Guimarães na Flig novamente

As feiras literárias são encontros públicos onde obras literárias são discutidas em público, muitas vezes discutidas pelos próprios autores ou por profissionais (críticos, editores, etc.). Esta forma relativamente recente de mediação da literatura envolve a transição de uma prática de leitura vivenciada como solitária (o leitor diante do seu livro) para uma prática coletiva, que assim se apropria da noção de “público”, como um grupo reunido pelo e para o evento: a feira “celebra a literatura e as suas ressonâncias, e constrói uma ligação entre a solidão da criação literária e a efervescência do encontro coletivo”[1]. A Feira literária de Paraty – FLIP – influenciou as feiras do Brasil todo, e que está se espalhando pelo Vale do Paraíba. Temos a Fllor, de Lorena, a Flipinda, de Pindamonhangaba, a Flic, de Cruzeiro, a Flil, de Lavrinhas, a Flig, de Guaratinguetá.

Esta última aconteceu nestes dias 14 a 16 de novembro e homenageou Ruth Guimarães em uma mesa com Clarice Lispector e Betina Marino. Mesa: Literatura, mulheres e mídia: um encontro com Clarice Lispector, Ruth Guimarães e Betina Marino com as convidadas: Carla Orrú, Júnia Botelho e Juraci de Faria Condé, mesa mediada por Ivan Reis. Foi feita uma contextualização da vida e obra das escritoras com o objetivo de traçar um breve perfil biográfico de cada uma delas; discutiu-se suas carreiras, pois Clarice, Ruth e Betina também atuaram, para além de seus textos ficcionais, em veículos jornalísticos importantes para a mídia do Brasil. São vozes femininas que ainda ecoam nos dias de hoje.

O que ainda não conhecemos de cada uma e para quais leitores seus textos eram destinados. Sobre as questões de estilo, a conversa foi chegando no fato das escritoras também darem voz a assuntos que se tornaram relevantes em suas obras e, consequentemente, atravessaram gerações e o que faz de cada uma ser universal. Descobrimos a guaratinguetaense Betina Marino, revimos os textos de Clarice Lispector e descobrimos algumas curiosidades, as autoras enquanto cronistas de seu tempo e o quanto elas ainda dizem, apesar de ausentes do mercado literário há muito tempo, aqui não estão? Continuam no que fica de suas obras. Foram lidos alguns trechos selecionados pelas convidadas. Foi uma bela homenagem a essas três autoras, com tantos pontos em comum. Vida longa a Betina Marino, Clarice Lispector e Ruth Guimarães. Vida longa às feiras literárias e que o público aumente todos os anos.
http://www.correspondances-manosque.org/images/telecharger/programme-2013.pdf

A Manifesta.cia apresenta: As comadres de Ruth Guimarães

No dia 15 de novembro, às 16h30, o CEU Vila Esperança recebe o espetáculo “As Comadres de Ruth Guimarães” da Manifesta Cia, uma homenagem à escritora Ruth Guimarães, primeira mulher negra a ganhar destaque nacional na literatura brasileira.

Com direção de Andrea Ojeda, o espetáculo é um mergulho no universo da cultura popular e no poder da palavra que atravessa gerações. Entre causos, cantigas e sabedorias, as comadres celebram a força das mulheres e das histórias que aquecem o coração!Ruth Guimarães

15 de novembro
16h30
Entrada gratuita
Classificação livre
Acessibilidade integrada à cena
CEU Vila Esperança – Rua Demerval da S. Pereira, s/nº, Loteamento Vila Esperança – Campinas/SP

E de 3 a 14 de novembro, a biblioteca do CEU recebe a instalação literária “Encontro ao pé do Fogo: o universo de Ruth Guimarães” um convite ao aconchego da leitura, da música e da memória.

Uma história sobre amizade, ancestralidade e o poder das palavras que seguem vivas, contadas de comadre pra comadre.

Ficha técnica
Design: @joyce_msza
Acessibilidade: @dani.clh
Consultoria em acessibilidade: @souojeff

Ruth Guimarães

2º Simpósio Baobá de Educação, neste 20 de outubro de 2025 – Instituto Ruth Guimarães presente

O 2º Simpósio Baobá de Educação foi realizado no Auditório Frei Galvão, em Guaratinguetá, com o tema Mulheres Negras na Educação.
Mestre Morena iniciou com a Ladainha no berimbau, destacou Dandara e cantou com suas alunas.
“Quando eu venho de Luanda ê.. não venho só”
Júnia Guimarães Botelho nos brindou com histórias de sua mãe Ruth Guimarães, professora negra e escritora, de Cachoeira Paulista, além de nos fazer um convite para o dia da consciência negra, quando haverá no Instituto Ruth Guimarães o dia da “Troca de saberes”.

Efigênia Augusta de Freitas, a nossa griô, fez uma explanação sobre as primeiras professoras negras do Brasil, em powerpoint, mostrando fotos e chamando o público para ler em voz alta frases impactantes. Destacou duas Escolas que homenagearam professoras negras: Escola Municipal Aliete Ferreira Gonçalves, no bairro de São Manoel, em Guaratinguetá, Escola Municipal Profª Maria da Glória Freitas, no bairro São Francisco, em Aparecida e acrescentamos a E.E. Ruth Guimarães Botelho, Escola de ensino fundamental em São Paulo. Além disso, A Escola Estadual Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto foi a primeira da rede paulista a participar do projeto Academia Estudantil de Letras. Em 2017, 11 alunos do Ensino Médio da unidade na zona norte de São Paulo tomaram posse em evento com a presença do secretário da Educação da época, José Renato Nalini e de Joaquim Maria Botelho, filho de Ruth Guimarães Botelho. Seus familiares estavam na plateia prestigiando o evento que a escolheu como patrona da cadeira principal da agremiação.

Efigênia ficou emocionada ao falar sobre a escola que leva o nome de sua irmã, mas ao mesmo tempo afirmou: “É pouco! Precisamos homenagear nossas professoras e professores negros”. Sim, é pouco. E importante que falemos a respeito.
Ana Flávia Coelho iniciou a sua fala homenageando o Prof. Alexandre Barbosa, que nos deixou há pouco menos de um mês, destacando o seu trabalho ímpar à frente da Escola Joaquim Vilela, em Guaratinguetá. Foi muito clara, expondo de forma muito didática as leis, o que é o PNEERQ, explicou os eixos das ações, trouxe questões sobre heteroindentificação.

Ao final o público presente foi chamado a falar sobre as professoras negras com quem estudaram: Ana Maria, Giane, Sandra, Dona Tó, Ruth.
Uma conferência sobre educação de mulheres negras visa a promover a igualdade de gênero, superar barreiras sistêmicas e específicas que elas enfrentam (como pobreza ou violência de gênero), compartilhar melhores práticas e fortalecer a liderança feminina. Esses eventos criam um fórum de discussão entre especialistas, profissionais e jovens para desenvolver estratégias políticas e soluções inovadoras que garantam o acesso equitativo à educação de qualidade e melhorem a condição das mulheres. Dentre seus vários objetivos o principal é superar barreiras, além de promover a igualdade pensando o acesso equitativo à educação de qualidade para todas as mulheres, particularmente em contextos humanitários ou de fragilidade; fortalecer a liderança construindo ambientes de aprendizagem inclusivos para desenvolver as habilidades de liderança das mulheres; compartilhar conhecimento; desenvolver estratégias, posto que os participantes podem iniciar ali, baseados nos questionamentos que são feitos, planos de ação concretos e recomendações políticas para acelerar a conquista da igualdade de gênero na educação e além; construir redes e parcerias, para apoiar a agenda de longo prazo da educação das mulheres. E é uma união, mão na mão, para enfrentar desafios contemporâneos.

Uma mestranda arquiteta lutando pelo instituto Ruth Guimarães

As reflexões desenvolvidas ao longo desta dissertação conduzem a uma constatação que não pode ser silenciada: propor a criação de um centro cultural no Brasil, sobretudo em uma cidade do interior, significa enfrentar uma série de obstáculos estruturais e simbólicos que extrapolam o campo arquitetônico. Trata-se de um gesto que desafia a lógica de um país que, historicamente, não valoriza a cultura, negligencia a preservação do patrimônio e ainda resiste em reconhecer a potência das manifestações artísticas e literárias negras. Ao localizar o projeto em uma região interiorana, não apenas se explicitam os desafios materiais – como a carência de políticas públicas e o descaso com a infraestrutura -, mas também se revela um quadro mais amplo de invisibilização social e cultural, atravessado por desigualdades e preconceitos arraigados.

O exercício aqui apresentado assume, portanto, um caráter duplamente desafiador: arquitetônico e político. É arquitetônico porque se propõe a dialogar com a paisagem natural, estabelecendo uma relação de harmonia com o meio ambiente em um país em que este é sistematicamente desconsiderado, explorado e degradado em nome de lógicas mercantilistas e de uma concepção desenvolvimentista que privilegia a produção de lucros em detrimento da vida. E é político porque tensiona as narrativas oficiais, ao trazer para o centro do debate a obra e a trajetória de Ruth Guimarães – escritora que, com coragem e sensibilidade, se autodefiniu como “pobre, preta, caipira e mulher”, condição que, por si só, carrega o peso de interseccionalidades que ainda hoje são alvos de violência, exclusão e silenciamento no Brasil.

Homenagear Ruth Guimarães é, nesse sentido, mais do que resgatar a memória de uma autora; é reafirmar a importância da valorização da cultura negra e do legado das mulheres que ousaram escrever contra as correntes dominantes de sua época. A escolha de Ruth como matriz simbólica deste projeto não apenas legitima sua relevância como intelectual e agente cultural, mas também aponta para a urgência de uma luta contínua pela preservação do patrimônio cultural em um país onde a degradação e a homogeneização arquitetônica resultam diretamente da ausência de identificação da população com os espaços. Quando a apropriação popular é substituída por interesses do mercado, o patrimônio deixa de ser percebido como bem coletivo e se torna vulnerável ao esquecimento e à destruição. Assim, o que está em jogo não é apenas um edifício, mas a própria noção de pertencimento e identidade de uma comunidade.

O projeto aqui delineado assume essa batalha como um exercício constante de resistência: construir espaços que favoreçam a memória, o encontro e a expressão cultural é uma forma de se opor à lógica de apagamento e exclusão que ainda estrutura o país. Mais do que um gesto arquitetônico, é um gesto político e social, que busca contribuir para a construção de uma coletividade mais consciente de seu patrimônio e mais disposta a defendê-lo. Trata-se de uma tentativa de reverter o quadro de negligência cultural e ambiental, criando fissuras em um sistema que insiste em invisibilizar aqueles que não se encaixam no padrão dominante.

Nesse processo, torna-se evidente que lidar com temas como cultura, patrimônio, natureza e identidade em um país como o Brasil é enfrentar uma dezena de dificuldades, preconceitos e contradições. Mas é justamente nessa dificuldade que reside a potência do trabalho. Ao propor um pavilhão sustentável para o centro cultural em homenagem a Ruth Guimarães, este projeto não apenas reconhece a grandeza de uma mulher que soube transformar em literatura sua condição social e racial, mas também reafirma a necessidade de manter viva a memória daqueles que foram sistematicamente marginalizados. Preservar a cultura, o meio ambiente e a história é, assim, um exercício de resistência e de esperança, um chamado a reconstituir laços de pertencimento e a cultivar um futuro mais justo e plural.

Nesse sentido, a pesquisa abre também possibilidades de desdobramentos futuros. Entre eles, destaca-se a necessidade de aprofundar os estudos sobre a aplicação da bioconstrução em centros culturais, sobretudo em contextos interioranos, ampliando referências técnicas e consolidando sua viabilidade normativa e econômica. Outro caminho é a aproximação com as universidades, de modo que canteiros experimentais como este possam ser incorporados às atividades de extensão em cursos de Arquitetura, Urbanismo e Engenharia Civil, funcionando como espaço de aprendizado prático e de engajamento comunitário. Além disso, a continuidade da investigação pode contemplar o desenvolvimento de projetos complementares – estruturais, de interiores e de paisagismo -, bem como a análise de modelos de gestão participativa capazes de assegurar a vitalidade e a sustentabilidade do equipamento cultural a longo prazo. Essas propostas indicam que o trabalho aqui apresentado não se encerra em si mesmo, mas constitui ponto de partida para novas pesquisas e práticas comprometidas com a cultura, a memória e a justiça socioambiental.

Ruth Guimarães

Ruth Guimarães, homenageada

1ª FLIB – Festa Literária de Bananal movimenta o Vale Histórico

Na primeira edição do evento Circuito ENCANTE (Encontro de Causos da Nossa Terra), realizado entre 29 e 31 de agosto, a autora de Cachoeira Paulista foi homenageada.
Seu filho, Joaquim Maria Botelho, abriu o evento, ao lado do professor Wagner Fernandes, falando da obra e biografia da escritora para um público interessado.
Um conjunto de banners que resumem sua trajetória intelectual e vários títulos de seus livros permanecerão expostos no Casarão Lilás de Cultura, no centro de Bananal, até o dia 20 de setembro.
Os organizadores levarão a exposição a escolas municipais e estaduais, para divulgar e discutir os livros de Ruth Guimarães.

 

Prêmio Ruth Guimarães III Jornada da Mulher Negra

O Núcleo de Estudos e Pesquisas Étnico Raciais (NUPE) da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB/Unesp) aproveitou o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho, realizou  na Pinacoteca Fórum das Artes um evento com programação diversificada: palestras, atividades culturais, apresentação de trabalhos e relatos de vivências, e muito debate, muitas questões. Em um espaço seguro, onde as pessoas se sentem acolhidas, onde se pode falar e ser escutado, onde há construção coletiva. Onde se pode construir uma rede de apoio porque as pessoas, – os docentes, discentes, palestrantes, coordenadores, organizadores – falam a mesma língua, têm um lugar de fala e dialogam.

O tema proposto para Júnia Botelho, representante do Instituto Ruth Guimarães, foi sobre a ancestralidade, ou mais precisamente: uma palestra sobre os saberes ancestrais, oralidade e produção de memória. As moderadoras foram a doutoranda Gabriela Botelho e a sra. Aparecida Donizete. Não por acaso, Gabriela e Júnia são parentas, a prima Gabriela, neta de primo, distante no tempo, mas de uma proximidade trazida pelos ancestrais, de uma voz que escutamos e não sabemos de onde vem. Aparecida fez perguntas muito pertinentes. Nem sempre temos respostas para todas as questões, mas nem por isso elas devem deixar de ser colocadas. A dor é ancestral? Não sei, mas certamente a felicidade é. A felicidade de ter comigo, a meu lado, como um apoio, Gabriela, que nem era Botelho, nasceu Ferreira e foi mudando seu nome ao longo do tempo. Por quê? Porque era assim que tinha de ser. E porque assim foi. Doemos, sim, choramos, sim, e isso não deve ser esquecido. Mas a dor ancestral não deve doer somente para nos fazer chorar, cantemos, dancemos, porque temos esse banzo, esse profundo sentimento de melancolia e saudade da terra natal, da família e da liberdade, que faz parte de nossa história e de nossa pele, sentimos, mas não podemos morrer por ele – devemos viver por ele e fazer disso um passo para ir além e fazer viver nossa história de outra maneira.

O sobrenome. Então não temos sobrenome? Perdemos o que tínhamos e não somos mais nada? Não temos mais a ancestralidade? Somos aqueles que fomos, e que nem sabemos mais de onde viemos, mas que trazemos na pele, e ganhamos o que conquistamos. As particularidades e especificidades daqueles que aprendemos a ser, à força ou com o tempo adaptando-nos ao que temos. Quem eu sou e de onde eu venho está ligado a este nome que não tenho? Eu sou minha mãe, minha avó, minha bisavó e me deixo em minha filha. A ancestralidade é a filha que eu não tive e, no entanto, é a filha que se tornou. Minha filha é branca de mãe preta, Gabriela é preta de mãe branca e, no entanto, somos ela e eu da mesma linhagem. Meu nome é aquela que me tornei. As tradições podem recomeçar. Ou começamos outras. Os saberes ancestrais ganham novos sabores, o sabor da memória, que está ressignificada nas relações intergeracionais, só temos que saber como passar e receber os saberes e os sabores. Temos de resgatar esse ciclo de cuidados, temos de pertencer e para isso lembrar o tempo todo, fazer da memória não um canto de lamentos, mas um canto de ninar e fortalecer nossa identidade. A luta pela nossa preservação, pela nossa existência e pela nossa dignidade vem do tempo de conversar e de passar a informação. Cuidemos da alma!

Ruth Guimarães conta histórias: “Escrevo para que, afinal? Para obter honra e glória? Para poder dizer tudo o que penso?”, questiona a autora em um dos trechos do seu livro Contos de cidadezinha. “Ah! Eu conto histórias para quem nada exige e para quem nada tem. Para aqueles que conheço: os ingênuos, os pobres, os ignaros, sem erudição nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mistério. Essa é a única humanidade disponível para mim.” Ela conta histórias e nós não estamos mais contando. Não sabemos mais a origem de nosso nome. Só não teremos mais nome, se não tivermos mais memória. A jornada da mulher negra trouxe novamente à tona o nome de Ruth Guimarães. E de todas essas mulheres enfermeiras, doulas, médicas, professoras, assistentes, que estavam ali assistindo, conversando, palestrando, ajudando a fazer a comida para os intervalos, declamando, rindo, se emocionando o que escutamos? Histórias. Comovidas e comoventes. Pessoas ocupando seu espaço. Representando e sendo representadas por seus pares.

Houve uma reivindicação muito apropriada que saiu dessa jornada: é necessário haver mais representatividade, os nossos precisam fazer parte das decisões, porque somente assim a universidade será verdadeiramente democrática. O povo preto não está preparado para concorrer a esses postos de decisão? Então como preparar o povo preto? Como preparar concursos de forma mais justa? A jornada não deve ser somente teórica, mas apresentar propostas para serem enviadas a responsáveis governamentais. Para que seja um movimento mais efetivo.  Mais ação, mais soluções, instrumentalizando a população da jornada. Das jornadas. Da universidade. Do mundo.

Ruth Guimarães deu o nome a um prêmio. Esperemos que seja inspiração.

A bênção: narrativas das matriarcas

O legado de Ruth Guimarães

O Sesc Pompeia está realizando escutas literárias na Biblioteca com vozes ancestrais e presenças plurais. Esses encontros literários se chamam “As Filhas da Literatura”, o primeiro deles aconteceu no dia 20 de agosto e apresentou as filhas das escritoras Carolina Maria de Jesus e de Ruth Guimarães, mostrando a importância das obras e legados dessas figuras femininas em um importante centro cultural em São Paulo projetado por uma mulher:  Lina Bo Bardi, reconhecidamente uma das obras arquitetônicas mais importantes do pós-Segunda Guerra Mundial. A programação literária do Sesc Pompeia traz vozes negras, indígenas, femininas e LGBTQIA+ que escrevem, contam, colam, bordam, leem e compartilham saberes. Estes encontros receberam o nome de “A bênção: narrativas das matriarcas”, porque não se trata somente de literatura, são também os gestos, os passos, os caminhos, as travessias, o direito à memória de mulheres que, porque não sabiam que não era possível, foram lá e fizeram. Fizeram caminhos, e agora estão sendo lembradas por outras, que estão caminhando no seu caminhar. “São diálogos entre gerações, entre a oralidade e o papel, entre o silêncio que veio antes e a palavra que agora pede passagem”, como disse Ketty Margarete Valencio, bibliotecária do Sesc Pompeia. No dia 20 de agosto, Júnia Botelho e Vera Eunice de Jesus, filhas de Ruth Guimarães e Carolina Maria de Jesus, se encontraram e conversaram, contaram suas histórias e a de suas mães, se surpreenderam com tanta diferença em um mesmo Brasil, em uma mesma época, fizeram o público rir e chorar. Mário Medeiros, o mediador, conheceu Ruth pessoalmente, a entrevistou, escreveu um belo artigo sobre ela chamado Os acontecimentos de Ruth Guimarães (1920-2014): alcances e limites para uma intelectual negra em São Paulo, tinha um bom conhecimento sobre a literatura de Carolina, foi ligando o que conheceu com o que leu e foi uma boa roda de conversa, dinâmica, com interação do público. As diferenças se complementam, fazem uma colagem e o Brasil todo ganha com essas reflexões e com esses legados: o de duas das maiores escritoras negras do país, e com todos os outros encontros interessantíssimos, que você não deve perder. No Sesc Pompeia, em todos os Sescs, e onde você puder encontrar as matriarcas, as filhas, as netas da literatura e das tradições populares.

Ruth Guimarães na Flipinda 2025

A obra literária em livro de clássicos

Representando o Instituto Ruth Guimarães, Joaquim Maria Botelho participou, no dia 9 de agosto, no Armazém da Lagoa, da 3a. edição da Festa Literária de Pindamonhangaba, a Flipinda 2025.

Na mesa que celebrou o lançamento do livro Grandes Escritores do Vale do Paraíba – volume 2, organizado por Alexandre Marcos Lourenço Barbosa, Joaquim Maria falou do texto que produziu sobre o pioneirismo de Ruth Guimarães, tanto na literatura quanto na educação.

Em uma segunda mesa, Joaquim Maria foi o mediador de uma mesa cheia de debates e algumas divergências, sobre a relação de literatura e meio ambiente, com Getúlio Martins e Dal Marcondes, dois ícones da defesa da natureza na nossa região.

Ruth Guimarães