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Apesar dos pesares

Mal começam os calores abafadiços de fim de ano o noticiário se enche de informações sobre crianças pobres desidratadas, das favelas e cortiços. Mal o inverno desponta e vem o tempo seco, lá vêm as doenças respiratórias. Ainda mais agora que a fome vem tirando a resistência da infância, e à nossa porta se multiplicam os pedintes.
O máximo que se pode fazer nas circunstâncias, e é o que fazem os médicos dos serviços de assistência, é acudir ao pequeno de vida ameaçada, deixá-lo fora de perigo, e devolvê-lo ao cortiço. Para passar fome de novo. E então morrer. A desidratação já se chamou colerina e era uma espécie de cólera em ponto pequena, mas não a ponto de poupar os corpos de que se apossava. Que eram afinal a gastrite e a gastro-enterite, senão o depauperamento, a pouca resistência, a falta de alimentação adequada? Que era a colerina? Que é tudo isto senão a fome, devoradora de crianças? Irmã Ângela, a devotada irmãzinha de um hospital de pobres, dizia, com uma expressão celestial na face macerada: “Criança é tripa!”, definição que não prima pela beleza, nem pela poesia, mas tem o que uma definição precisa: é concisa e exata.
Que lá na minha terra morria muita criança: desses calores e desses mormaços, de leite pouco e de pobreza muita. Dona Alexandra, assessorada pelo filho marceneiro, fazia o caixãozinho azul ou rosa, de fazendinha colorida e brilhosa, ralinha, ordinária e enfeites de galão prateado. O enterro vinha dos bairros: do Pitéu, da Lagoa Seca, do Morro Vermelho, de onde também chegavam carregados, nas noites de sábado, homens lanhados de faca. Pelas ruas dessa Cachoeira, com aterros de moinha de carvão de pedra, toda negra e ardente, enterro de criança tinha (e ainda tem) uma curiosa particulariedade. Ia o caixão na frente, o anjinho entre flores, com uma capela de rosas de papel, o rosto descoberto, e atrás meninas carregavam a tampa. Não havia enterro de criança sem bimbalhar de sino. Morte de menino até parece que era motivo de regozijo, procissão percorrendo as ruas, mortezinha sem choro, mocinhas de braço dado, com ramalhetes de sempre-viva e rosa amarela na mão, manjerona cheirosa, alecrim. E o sino bimbalhando, música, festa. Ouvia-se o comentário desiludido do povo, em suspiros doidos: descansou. Feliz quem vai em criança. Livra de muito sofrer. Quisera eu ter ido assim, pequenino.
Mas, qualquer dentadinha à toa de cascavel, ou de urutu, o tenebroso, era um carreirão do apavorado para a santa casa: me salve, irmã Ângela, minha Nossa Senhora!
Gente impávida da minha terra. Ninguém, mas ninguém querendo deixar de sofrer.
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Conversinha sobre arte

Decididamente, a minha cidade não é terra de músicos. Minto. Não é terra de conjuntos, de orquestras, de profissionais organizados, que músicos há muitos por aí, nos butecos, em noites de sexta. Relacionados, conhecidos, tirando os que arranham, há uns duzentos e tantos violinistas. Jamais alguém conseguiu juntar pelo menos dois deles, para uma seresta. A Secretaria da Cultura da cidade se impôs, neste momento, a obrigação de criar uma Banda Municipal. Instrumentos são muitos, novos, atraentes, pisto, flauta-doce, sax-tenor, prato, e outros e outros. Abriram espaço para ensaio, contrataram um vero professor, talentoso.

Conta Osório César que, havendo no Hospital do Juqueri, em Franco da Rocha, vários doentes que conheciam música e tocavam instrumentos, certa vez lembrou o Dr. Leopoldino Passos de encarregar um antigo esquizofrênico paranóide de organizar uma banda. Fez-se uma coleta entre os médicos e empregados, e comprou-se o instrumental para uma pequena charanga. O posto de regente coube a um parafrênico místico, pistonista e compositor. Encomendaram-se peças harmonizadas com partituras, dobrados, valsas, rocks. A banda se chamou Charanga Hebefrênica. Entre os músicos, destacavam-se, de vez em quando, guinchos estridentes. A trompa e o trombone rasgavam acompanhamentos distonados. Em compensação, a bateria brilhava pela justeza na marcação.
Algumas vezes acontecia que o pistonista atormentado por alucinações características do seu quadro mental, baixava a cabeça, persignava-se, soltava uns grunhidos e ajoelhava-se, rezando. Passada a crise, volta a interpretar a sua parte. O baixo, que era epilético, podia ser tomado repentinamente de crises convulsivas;
Um dia, fui ouvir um concerto dado pela Charanga. Os doentes iam tocando bastante bem, revelando um espírito de organização e sociabilidade razoáveis e também boa memória musical, ao tocarem de cor. Às tantas, algum largava de mão a corneta, o trombone, e plantava uma bananeira em cima do estrado. O resto da turma – taratatchim! taratatchim! – continuava com a tocata. O outro voltava dali a pouco, recomeçando a função com o maior entusiasmo. E eram “intermezzos”, com o flautim pulando num pé só, a percussão desistindo, para caçar borboletas inexistentes e o auditório e o restante da banda – em frente! em frente! – certos de que o trânsfuga voltaria.
Longe de mim a comparação. Não quero levantar falso testemunho contra os bandeiros, bandistas, nossos. Mas ouso cogitar que, se alguém der com uma gaiola de passarinho, com um chama cantador, daqueles bons, ou vara de pescar com carretilha, com esses rios e esses vales e esse sol e essa alegria dos dias cálidos, e com esses caminhos que não levam para lugar nenhum, a não ser para o infinito, ah! ninguém volta para a Banda, não!
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Matinada

Instituto Ruth GuimarãesDe manhãzinha, alguma coisa estava acontecendo, no ar, nas ruas, no céu. O que havia? Qualquer coisa inusitada. Rumor em demasia. Um susto, parecia. Canto em cascata de duas qualidades diferentes de pios. De uma parte um susto, um protesto. Mas escutem: que barulho é esse?
Uma senhora matinada. Eram as maracanãs, uma espécie de papagainho sem graça, barulhenta gritadeira, madrugando para incomodar.
O céu está sereno, de um azul consolador.
De repente, não mais que de repente, a manhãzinha se encheu gloriosamente de uma barulhenta matinada.
– Que foi isso, gente? – indagou a Baita, saindo ao terreiro com as mãos em concha acima dos olhos.
As coisas estão mudadas, mas alguma coisa permanece. As coisas estavam muito mudadas. A luz, as sombras. O beijo quente do calor na pele. Aquele revérbero, nos olhos, quando o rio desliza e caminha. Por exemplo, as flores se oferecem em beleza e são um chamado. Temos que contemplá-las. Temos que aprender que é primavera. O campo, o rio, o céu, sempre conseguem contar que ainda é primavera. E as maitacas, esse papagainho sem-vergonha, barulhento, pia, grita, martela, assobia, faz barulho com o bico e com as asas, não os deixa esquecer que é primavera. Grandes voos, rápidos, sincronizados, vão marcando o compasso, que são oito horas, que é manhã, que o dia é claro que o sol aquece, que a vida é uma dança de longos voos rápidos, que a vida é um voo. Que a vida é a vida. E que é música. E que são flores, são flores, são pios.
Foi a primavera, foram os pios. E que foi que perturbou a música dos maracanãs?
Geralmente sabemos as horas, quando o alegre bando desaparece para os lados da montanha, longe, tão distante que a gente acaba não sabendo para onde vão esses papagainhos…
Hoje eles se atrasaram, perderam a hora. Perderam o ritmo. Não nos ensinaram nada a propósito das floradas, nem do tempo, nem da vida. Nem do espaço que é preciso medir. Nem do trabalho de todos os dias, que é preciso reafirmar que é belo. Hoje as maracanãs vão sem festa nem alegria. Música não há, mas um excesso de pios. Perderam até a hora da partida, que de costume acontece, ritmadamente. Se bem que em grandes gritos, que papagaio é ave sem medida nem música, o grupo é homogêneo. Cada um sabe o tom em que deve gritar quando deve gritar e por que deve gritar. E quando deve se perder no azul, longe, alto, esplendorosamente.
Entretanto não sabemos a razão da perturbadora quebra de ritmo desses pássaros tão acostumados a um horário igual, todos os dias de todas as semanas de todos os meses, e que não perdem a hora nunca, e têm um reloginho nas asas, nos pios, e preenchem o seu horário como se Deus estivesse marcando para eles.
E hoje estão desafinados, fora do ritmo e fora do horário… Que houve, afinal?
E então vejo, não mais que de repente, que meninos e adultos não chegando para o botequim mais freqüentado pelo pessoal dos passarinhos de gaiola. E entram muitos e saem, e falam em altas vozes e começa a se delinearem pios sincopados, suaves, parece que uns respondendo a outros e são teimosos, rolam como cascatas, como escachoar de notas musicais, vão e vêm e recomeçam, são macios, acariciantes, também recomeçam em catadupa, mas sem aspereza. E, no entanto, sentimos que notas macias, repetidas, acariciantes, dezenas, centenas, nos fazem bem ao coração.
Que foi? Que houve?

– A senhora não sabe? – pergunta um pequeno ainda com uma gaiola na mão, onde um pássaro em que predomina o amarelo, se mata de tanto cantar. – Seu Tico da venda está fazendo um concurso de trinca-ferros.

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Notícias de Esporte

O glorioso C. F. C. (Cachoeira Futebol Clube) era um time que não brincava em serviço.Negócio dos jogadores, ou do técnico, ou de quem se arvorava em treinador, era ganhar: no apito, no tapa, na bola, na pancadaria, no grito, ganhavam os craques no campo e a torcida no murro, qualquer forma de ganhar era boa para o invicto. Havia uma rivalidade, isto é, uma inimizade congênita, por assim dizer, entre o Cachoeira F. C. e todos os outros clubes do Vale. Depois do jogo, e às vezes até durante, era pancadaria na certa. Nicácio Soldado e mais três milicos apareciam e muita gente ia em cana. Ia-se alegremente, é verdade, cadeia não foi feita pra cachorro, foi feita pra torcedor. No dia seguinte, uma segunda-feira de serviço, os parentes ou os patrões dos baderneiros iam retirá-los, mediante uma fiancinha. Isso quando era em casa.
E então o glorioso foi convidado para um amistoso em Quiririm.
– Tá no papo! – diziamos nossos, os mais exaltados de boca cheia.
Dois caminhões lotados levaram a risonha torcida, para o jogo e mais um fotógrafo, dublê de torcedor. Selecionaram o Q.G. dos brigões: Pula Nágua, Pedrão, Negrinho do Norato, Escapulido, Tunico Gordo (que era magro como um cabo de vassoura vestido), o Turco Louco, o Galinha Cega, o Tibúrcio, o Leopordo Vam’entrá-de-acordo, e por aí além.
Dizer que o jogo transcorreu tranqüilamente seria exagero, mas ninguém esperava o transtorno da última hora, que atiçou a malquerença geral. Um carrinho,dado de má fé, um bate-boca nas arquibancadas, quando se viu, estavam os valentes torcedores cachoeirenses disputando com os locais uma corrida de velocidade olímpica. Corrida dir-se-ia que contra a morte, tão acirrada e animosa, de ambos os lados. E os gritos, santo Deus?! E o nome da mãe?! Cachoeirense não gritava. Somente corria. Num último arranco, por fim conseguiram certa distância, os caminhões vieram de encontro, o carro do doutor delegado apontou na esquina, encheram atabalhoadamente os dois mercedões e, – para os motoristas apavorados:
– Pé na tábua! Depressa como quem furta!
Lá se foram,fugindo, os craques do mais aguerrido futebol do Vale.
Quase desembocando na Dutra, perceberam que estavam sendo seguidos.
– Corre, João Onça! Pisa desgraçado!
Zelão da Geralda, na sua fala descansada, comentou:
– Eu ia jurar que aquele que vem gritando e sacolejando o guarda-chuva é seu Padre!
– É mesmo gente! É o seu Padre.
E de lá aquela gritaria:
– Pera aí! Pára aí!
– Que pára!? Que espera o quê?
O caminhão da frente parou.
Pára! Pára! É de paz.
E era. Seu Padre vinha trazendo dois retardatários suicidas que, com a pressão dos fujões, tinham ficado para trás.
Passado o susto e retomada a marcha com mais dois a bordo, o Tibúrcio e o Escapulido, o treinador avisou, serioso:
– Pessoal! Ninguém conta, ninguém precisa saber que nós deixamos dois dos nossos na mão do inimigo.
Mas havia o fotógrafo, cuja língua não cabia na boca.
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Nossa Senhora de todas as dores

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Temos um vigário que é poeta à sua maneira pois nunca lhe surpreendemos o pecado dos versos. É vê-lo de óculos, no seu carro, muito moderno e afobado, quem diria? Mas é poeta. Ouvimo-lo à tarde, às seis horas, nas comovidas preces à Virgem. “São as Vésperas, horas de sombras e crepúsculo, tudo se mistura e se duplica. Certa melancolia tempera o fim normal do trabalho diário” que assim descreve as Vésperas a Irmã Olga de Sá, no seu excelente livro de poesia Coisas Caladas. O sino toca. Um disco gira interminavelmente a Ave Maria de Gounod, ou de Schubert, ou de outro clássico qualquer.
A minha terra tem tardes lindas. Nunca vi ar mais transparente, nem céu mais translúcido, nem verde mais lustroso, nem recortes mais nítidos de montanhas azuis contra o azul mais profundo do firmamento escampo. Céu onde é setembro sempre. Várzeas onde é sempre primavera. Água de rio corrente, de música sempre, catadupas de luz esplendorosa sempre. Na tarde fina, que esmaece, se insinua o vago, o indeciso, a ternura, que é o esbater do amor. A cidade fica inteiramente quieta. A tarde é brasileira, morena, com uns tons de jambo-rosa e queda por uns instantes de dengue, desolada e desconsolada. Não como quem morre – mas como quem desmaia, e afunda, e se entrega. E cerra os olhos para no escurinho gostoso diluir-se em nada.
A voz do padre corrige essa molície pecaminosa.
“Meus caríssimos irmãos, diz Padre José – É hora da Ave Maria!”
É hora de abstrair do sensualismo doce da preguiça e pensar em nossa alma imortal. Na misericórdia e na bondade. É tempo de trocar o devaneio pela meditação.
Ele não fala sempre as mesmas coisas e nem sempre é ouvido. Andamos surdos para as coisas divinas. O padre Vieira também não era ouvido e era o padre Vieira. Tampouco o era Santo Antônio, que teve de se dirigir aos peixes. E o próprio Cristo foi-o mais pelos inimigos que o crucificaram que pelos pescadores que o seguiam. Padre José Nunes anda em muito boa companhia. Um dia destes, dei comigo a escutá-lo.
Ela é uma só e múltipla na unanimidade, ele dizia. Senhora das Dores para os que sofrem! Senhora da Guia para os transviados. Senhora do Perpétuo Socorro, para os aflitos. Senhora da Graça para os degradados. Senhora do Amparo para os pequeninos. Senhora Auxiliadora para os que choram. Senhora da Boa Esperança, para os desprezados. Senhora da Bonança para os navegantes. Senhora da Divina Providência, para os angustiados. Senhora da Boa Morte, para os agonizantes. Senhora da Soledade, para os que estão sozinhos. Senhora da Boa Viagem para os caminheiros. Senhora da Paz, para os corações inquietos. Senhora do Conforto para os angustiados. Senhora da Glória para os confiantes. Senhora da Piedade para os desgraçados.
Não foram talvez estas palavras. Foi esse o sentido.
Sei que por uma tarde de luz morrente e mansa, tocaram meu coração empedernido, obstinado.
Ave, Maria! Instituto Ruth Guimarães
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Violeiros

Instituto Ruth GuimarãesVioleiros são como os antigos bardos. Têm os mesmo sonhos embora usem, civilizadamente, colarinho e gravata e andem calçados. E embora também o seu meio de locomoção não seja mais o caminhar sem fim pelas estradas poeirentas, mas as ferrovias da Companhia Paulista. Exibem-se aqui e ali, isto é, — exibem-se não é bem o termo — procuram um contato com o público. Sua arte primitiva também precisa de divulgação e compreensão como todas as artes. Esses troveiros — como os menestréis, os cantores da gesta e os sentimentais seresteiros — cantam para alguém. É uma necessidade o seu cantar, chorando mágoas em rimas tocantes e contando casos nas modas dolentes.
O Centro de Folclore de Piracicaba promoveu o espetáculo no antigo e tradicional teatrinho de Santo Estevão. Primeiro são apresentadas as modas de viola, e que incrível impressão de viagem no tempo para mil oitocentos e qualquer coisa, quando se ouve o repinicado e as modas, e com a entrada dos cantadores. Vêm dois a dois: um violeiro, que é também cantador, e o segundo que faz o contracanto.Instituto Ruth Guimarães
Entram, e eles mesmos não sabem como, e a gente fica com o coração nas mãos de medo que errem, que façam fiasco, que se vão embora sem dizer nada, ou que fiquem ali parados, com aquela desoladora expressão de quem não sabe onde está. Mas o que acontece depois é magnífico. Durante o canto, adquirem aprumo. Isolam-se. Parecem fora do palco e do mundo — ou fora ou acima — porém, de qualquer modo, absolutamente inconscientes da assistência. Constroem um estranho mundo para eles. Um mundo trágico, às vezes, quase sempre triste, onde há lágrimas e dramas, amores sucedidos, facadas, fugas, tudo aquilo vindo devagarinho, monotonamente, poema dolorista sem variações. Os rostos inexpressivos dos troveiros, quase todos mestiços, com traços reveladores do desordenado caldeamento de raças, vão se animando. Mostram-se ora místicos, ora piedosos, ora exaltados.

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Catedral Submersa

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De dia não se vê. As águas tremem tanto, arrepiadas pelo vento e o sol é tão fino e coruscante!

Os olhos estão demasiadamente cheios de claridade e das cores, de sol e de cintilações. É muita a luz. Não dá para ver. Depois, há muito que contemplar, longe e perto. Como tinta derramada, pelo pasto, se estende o verde-abundante do capim-gordura, capim membeca, capim melado, onde engordam e se arredondam, com o pelo lustroso, as vacas do Joaquim Pedro. Temos que olhar para os ingazeiros que se curvam gentis, cumprimentando. E temos que olhar para os chorões que num lento gesto de mágoa lamentam não sei que desditas da negra sorte.

Pela manhã passa o bando de pássaros azuis das escolas. Andorinhas do mar, em azul e branco, muito gárrulas e muito chilreantes. As marrequinhas do banhado erguem voo aos bandos, ruflando as asas, desaforadas: Qual! Qual! Não dá para reparar no espelho da água tranquila.

Passam os leiteiros em carroças, sacolejando as latas. E os buracos de cangalhas escuras, e orelhas em pé. E boiadas em atropelo, animais esbarrando uns nos outros, sujos, cascos barrentos, orelhas pendentes. E o boiadeiro com a boca no berrante, arrancando tão sentida queixa! A poeira se ergue, redemoinha, o vento a leva. Quem vai reparar no espelho da água tranquila?

À tarde o passo é mais lento, o ar mais sereno, as cintilações se apagaram num tom neutro, entre cinza e lilás, e as águas se alisam, múrmuras. Os lambaris feitos de prata e sol se esconderam no fundo. Tardinha bem tardezinha de mugidos longos nas pradarias, os passos na ponte, tem um sentido de retorno e um jeito de fadiga. Igreja, não é nenhuma, porém a matriz de Santo Antonio, muito lírico, toda clara e alongada, de pontas agudas, em estilo romano, está sobre a colina como uma grande garça prestes a desferir o voo. Começam a se delinear na água quieta os seus contornos. Ainda muito esfumados, muito apagados. Quando o martim-pescador roça na água (que reflete um sol de sangue) a ponta reta da asa, ela estremece um pouco. Assim como estremece quando o pescador atrasado para o jantar joga pela última vez a linha. É à noitinha que percebemos afinal que há uma catedral submersa. Quando se acendem as luzes. Dentro da água negra, mais espessa não sei como, calada que impressiona, a igreja surge traçada em pontas de luz. Nem um brilho, nem uma asa, nem um murmúrio. Amarelo sobre o negro, a catedral no fundo d’água mais real e mais bela que a que vemos todo o dia, todos os dias, o ano inteiro, garça branca na colina. Ah! É mister que a noite venha, que venha a treva, para vermos. Submersa na noite da ausência a catedral quão bela se destaca, só, serena, com um brilho lustral de água ou de lágrimas.

(Nem uma cintilação, nem uma asa, nem um murmúrio…)

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O Rio do Vale do Sol

No ano passado estive em janeiro no Vale do Paraíba, e era chuva que Deus dava, mas chuva mesmo, sem um momento de estiada, a água suja inundou a várzea, o bairro transformou as ruas em amostra da era primordial, as comunicações para os lados da Bocaina foram interrompidas. Rodaram todas as pontes, exceto as construídas por Euclides da Cunha. O leite deixou de descer das fazendas da Serra. Pessoal dos Macacos, das invernadas para além do Cachoeirão, ficou mais uma vez isolado nos seus píncaros inacessíveis.

E era chuva que Deus dava, pródigo Alá. Nesse ano a água subiu até a laranjeira, e onde havia perfumadas flores e abelhas doiradas rodopiavam as folhas amarelas em torno das raízes que fora noiva do sol, nadavam as desaforadas traíras. E então neste ano, fui tarde para o Vale do Sol, meu Vale. Esperava que os belos dias tivessem vindo. E que me esperassem, apesar de brigados comigo, por um motivo que contarei depois, o pássaro, a manhã e a flor. Pois, amigos, era chuva que Deus dava, chuva e mais chuva, que entrou por fevereiro adentro, estragou o carnaval, molhou a presença e a paciência, impediu os passeios e ainda por cima não me deixou ir tomar o tal caldo de cana prometido em tempos que já lá vão pelo amigo Ditinho do Ciano (continua devendo). Afinal a temporada não ficou estragada de uma vez, por que arrumaram linhada e anzol, vara de bambu, banco, saco de estopa e chapéu de palha e os homens da casa acharam jeito de pescar na porta da cozinha, enchendo cestas e mais cestas de traíra da miúda e corimbatá e vindo todo o santo dia incomodar a gente com umas enormes fieiras de lambari, para fritar.

Até que o esporte perdeu de vez a graça, depois de ter passado pelas variantes da pesca de peneira e das tarrafadas na água barrenta do campinho. E viemos embora. Entrementes, aconteceu a tragédia de Caraguatatuba, e agora leio que as águas do Paraíba continuam subindo. Rio, meu rio, do Vale do Sol, tornado monstruoso e semeando a morte pelo caminho. Que devora as colheitas do dourado arroz, apendoado, fazendo-as apodrecerem na lama. O que empurra com monstruosas mãos de água assassina as choças dos piraquaras. Mas não quero mais falar desses assuntos. O pássaro está perdido. A manhã está perdida. E está perdida a flor. Afinal nada novo.

Lucrécio, há mais de dois mil anos já afirmava que os deuses, se é que existiam, (ressalva dele) não se interessavam de maneira nenhuma pelos assuntos humanos.

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As mães na lenda e na história

Instituto Ruth GuimarãesCombinando erudição e sabedoria popular, Ruth Guimarães evoca neste “As mães na lenda e na história”, publicado originalmente pela Editora Cultrix, em 1960, a vida e o exemplo de mulheres que, graças à fama alcançada pelos filhos que geraram, ocupam lugar certo nas páginas da História.
Para recontar as histórias dessas mulheres, ora obscuras e dramáticas, ora prosaicas e pitorescas, a autora se vale de toda a sua capacidade narrativa, já reconhecida em romance como “Água Funda”, contos e crônicas e estudos de folclore como “Os filhos do Medo”, “Contos Índios” e “Contos Negros”.
Ao longo do livro, Ruth cuidou, sobretudo, de indagar se essas mulheres souberam ou não cumprir cabalmente a sua tarefa de mães. Árdua e sublime tarefa que, logo no primeiro parágrafo, a autora define: “um, grande amor e uma infinita compaixão são as qualidades que distinguem a mãe excelente – aquela que
é refúgio e glória do filho, esperança e salvação, âncora, bússola, raiz e estrela – da outra que é apenas mãe comum”.

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O VALE DO PARAÍBA EM FORMA DE PEPITAS

Instituto Ruth GuimarãesRuth Guimarães vive dizendo que quer arranjar tempo para se dedicar à bruxaria. Ela é uma bruxa assumida, daquelas que cozinham poções encantadas em caldeirões de ferro e panelas de pedra, que curam doenças com mezinhas, tinturas e extratos de ervas medicinais, das que arranjam situações ruins com simpatias, rezas fortes, palavras mágicas. Ruth vive sem tempo, mas já é uma bruxa – a bruxa boa que o folclore valeparaibano representa nas suas histórias como a simpática velhinha que ensina o caminho às crianças perdidas, que destrói com artimanhas geniais os monstros para deixar passar os príncipes que vão, por sua vez, salvar as princesas transformadas em rãs e as donzelas amaldiçoadas pelas feiticeiras malvadas.

É assim que Ruth quer continuar vivendo neste Vale do Paraíba que ela conta e reconta nos seus escritos deliciosos, pesquisados com o carinho de quem garimpa brilhantes. Na sua calma de cachoeirense, Ruth vem abrindo a alma, há 71 anos, para ser o relicário vivo das informações e da cultura valeparaibanas.

Ruth é simples como a sua gente. Humilde como suas histórias. Sábia como seus avós. Tem o do magistério e o pratica pelo exemplo, pelo comportamento, pela força de caráter. Foi menina moleque, de nadar em represa, enforcar aulas para ler romances, fazer traquinagens com os animais, correr, brincar, ser. Foi chefe de família muito moça, cuidando de três irmãos mais novos, mourejando o sustento de todos na São Paulo dos anos quarenta, acumulando dois e três trabalhos com o curso de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo e um aprendizado de literatura com mestres como Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Amadeu Amaral. Cedo escreveu seu primeiro romance: “Água Funda”, um relato mais-que-perfeito do tipo popular valeparaibano. Guimarães Rosa lhe dedicou, depois de ler “Água Funda”, em manuscrito bilhete, o apelido de parenta minha. Foi cronista do jornal “Folha de São Paulo”, intercalando a coluna com Cecília Meirelles, Carlos Heitor Cony e Padre Vasconcelos. Comentou literatura no Rodapé Literário do jornal “O Estado de São Paulo”. Biografou personalidades como Cristo, Lesseps, Valdomiro Silveira e Buda. Estrela da Editora Cultrix com trabalhos de fôlego como o “Dicionário da Mitologia Grega”, “As Mães na Lenda e na História”, “Líderes Religiosos”, “Lendas e Fábulas do Brasil” e dezenas de outros. São mais de 40 trabalhos de pesquisa, pedaços de amor cada um deles. Traduções são muitas, do francês, espanhol, italiano, grego e latim. É de sua lavra a belíssima versão do “Asno de Ouro”, de Apuleio.

Ruth não para. Dorme quatro horas por noite e lê o que pode, tudo o que pode, o mais que pode. Tem um livro rascunhado, outro em produção e um terceiro na cabeça. Tem sido assim, nos últimos cinquenta anos. Que o digam seus milhares de alunos, que guardam dela ensinamentos de arte, de cultura, de vida. Ruth tem a qualidade singular de não passar despercebida. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu jeito calmo e seguro. Muito menos à sua impressionante capacidade de trabalho. Um capinador seu empregado costumava se queixar dela, dizendo que ela era a pessoa que havia inventado o trabalho.

Cada trabalho seu tem um sentido pedagógico, exemplar, de resgate das coisas do povo. Sua melhor pesquisa, que chamou de “Filhos do Medo”, recupera todas as manifestações desse gigante da alma, no dizer de Mira Y Lopez. Gnomos, duendes, assombrações, sacis, mulas-sem-cabeça, diabos e demônios, envolvidos nas mais diversas e arrepiantes situações que o povo se encarrega de fazer perdurar na memória dos descendentes pelo raconto, pela tradição oral. Mestra Ruth é especialista em escrever como quem fala ao filho ou ao amigo, de forma singela e clara e simples e objetiva. E linda. E sábia. Seu jeito fácil de contar a maior das complexidades dá sabor de descoberta à leitura. Ela explica e a gente entende, como bem deve ser o repassar de informações. Neste ponto ela tangencia o jornalismo, e a ele presta inestimável serviço, completando aspectos que a notícia não apura. Aprendizado de muitas reportagens para a “Revista do Globo”, “Quatro Rodas”, jornal “Valeparaibano” e “Revista Realidade”.

E, pois, se a palavra como signo linguístico é arbitraria, a imagem tem por vezes que ser buscada para conotar a informação. E Ruth encontrou no primo José o parceiro e cúmplice para o trabalho de duas vidas. Casaram-se. Tiveram nove filhos. Mas continuam entregando à vida novos rebentos de criação, na forma de reportagens, pesquisas folclóricas, exposições, livros, aulas. São professores, os dois. São garimpeiros de brilhantes. José desenha com a luz, em preto e branco, e fotografa as belezas das gentes e das coisas das gentes. O casal revisita a dialética de texto e imagem de Roland Barthes, nessa parceria. E prossegue Amadeu Amaral, recupera Valdomiro Silveira, revive Mário de Andrade, resgata Guimarães Rosa.

Neste registro do cotidiano de alguns lugares do Vale do Paraíba, as leréias dos morros e das serras, o clima dos mercados, o rosto das pessoas, as mãos dos artesãos, os trabalhadores, os lugares e seus ocupantes. Ruth e José, mágicos, nos emprestam o sabor de rever coisas nossas, caipiras, ricas. Mais que mágicos, Ruth e José, meus pais, bruxos, amados, nos remetem à singeleza do que verdadeiramente é importante. Mais não lhes poderemos pedir.

Joaquim Maria Guimarães Botelho
In Crônicas Valeparaibanas, junho de 1991.