A INSTITUIÇÃO

INSTITUTO RUTH GUIMARÃES – UM LEGADO PARA O VALE

A escritora Ruth Guimarães ganha instituto com seu nome, em Cachoeira Paulista

Por Joaquim Maria Botelho e Júnia Botelho

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Zizinho Botelho e Ruth Guimarães

Ruth Guimarães foi escritora, autora de mais de 50 livros. Na área da ficção, produziu romance, contos, crônicas e peças de teatro. Na área da pesquisa folclórica, recolheu lendas, crenças, costumes e várias manifestações da cultura popular. Também traduziu obras importantes do latim, do francês e do italiano. Ocupou a cadeira número 22 da Academia Paulista de Letras. E foi professora por mais de 35 anos, ensinando arte e literatura. Combinou, à perfeição, erudição com simplicidade.
Ruth também gostava de fogueira. Nasceu em um 13 de junho, mês de festas. Mês de paçoca de pilão – e todo aluno que chegava pilava amendoim. Fez no seu quintal um espaço especial para a fogueira e um fogãozinho a lenha, onde punha uma lata cheia de pinhão, que ficava esquentando a noite inteira. Um ranchinho para a comilança. Uns bancos de madeira. E todo ano tinha fogueira, fizesse frio ou não. Joaquim Maria, seu filho mais velho, herdou esse amor ao fogo, junta lenha também. Zizinho, o marido, recebia, conversava, fotografava. Ele tocava cavaquinho e violão. Ela cantava. Cantavam: “meu chapéu de paia, que veio do Ceará, meu chapéu de paia, que é pro sol não me queimar” e “Mané fogueteiro era o deus das crianças, na vila distante de Três Corações, em dia de festa soltava foguetes, fazia rodinha soltava balões” e “ com a corda mi, do meu cavaquinho, fiz uma aliança pra ela, prova de carinho”. Eles cantavam e tocavam, e escreviam, e liam, e declamavam, e riam e riam.
E todos vinham para as festas. Eles não anunciavam nos jornais, não tinham redes sociais, não punham nas rádios, mas todo mundo sabia, e todos vinham e a casa estava sempre cheia de gente, de artistas, de povo. O pipoqueiro, pobrezinho de tudo, lhe dava de presente na sua festa de aniversário o seu carrinho e o seu fazer. Ficava a postos a noite toda, oferecendo pipoca para toda a gente.

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Ruth Guimarães

Zizinho morreu em outubro de 2001. Parceiro de uma vida inteira. Ruth não teve outro jeito, ainda não era sua vez, precisou suportar a perda e seguir em frente. Foi secretária da cultura de Cruzeiro por dois mandatos e em Cachoeira Paulista por um mandato. Seguiu fazendo palestras, encontro de folias de reis, de congadas, trabalhando no parque ecológico, dando entrevistas. Contando histórias. Publicou livros, fez lançamentos, entrou na Academia Paulista de Letras, quis reunir mil histórias brasileiras e chamou os colegas da Academia, os colegas professores, escutou os que vinham na sua porta chamar seu nome para ajudá-la. Não teve tempo, porque fazia tudo devagar e precisava ir gestando, como estava gestando o seu livro da bruxa, outro chamado um tal de Zé, sua enciclopédia de medicina folclórica, os outros volumes das histórias infantis que começaram com Histórias da Onça e Histórias do Jabuti, e nem sabemos quantos mais tinha borbulhando na cabeça!

Deixou um monte de papéis, em um armário cheio de portas, e este armário é uma daquelas maquinações que Deus fez para o Pedro Malazartes não incomodar mais ninguém, nem o Diabo! Aquela maquinação do Malazartes separar o joio do trigo e vir um vento sei lá de onde e misturar tudo outra vez.
Deixou também quatro herdeiros que são os guardiões da memória deste casal: Joaquim Maria, o número 4, tem o acervo de seus livros, corre atrás de editoras para a publicação de seus livros, Olavo, o número 8, digitalizou as mais de três mil fotos de Botelho Netto, alimenta o blog “retratos e crônicas (http://retratosecronicas.blogspot.com.br/), alimenta o face de Botelho Netto em preto e branco (https://www.facebook.com/botelhonetto/?hc_ref=SEARCH) ele e Marcos (no 6) administram o espaço Ruth Guimarães (https://www.facebook.com/groups/108863609318855/). Marcos e Júnia ficaram em Cachoeira Paulista e fazem a manutenção da casa onde nasceram José e Ruth. O terreno todo tem aproximadamente três mil metros quadrados, com várias casas construídas, vai do viaduto ao parque ecológico, pela Rua Carlos Pinto, e da linha do trem ao parque ecológico, pela Rua Silva Caldas.
O “Terreiro das Artes” continua funcionando. Lá acontece o grupo de estudos “Ruth Guimarães”, uma vez por mês.

A ideia do Instituto
Para manter viva a memória dessa alegria pela arte, começou a nascer a ideia de criar uma entidade que reunisse não apenas o legado literário físico de Ruth Guimarães, mas que oferecesse oportunidade de discussão e aprendizado de artes em geral, mais especialmente a literatura. Os irmãos conversavam a respeito da ideia e aos poucos a decisão foi se firmando. A criação do Grupo de Estudos Ruth Guimarães, com reuniões mensais para estudo de sua obra, foi uma das atividades que Júnia encabeçou, e à qual agregou encontros musicais e artísticos. A semente do Instituto tomava corpo.
Em 2016, a vereadora Cátia Bueno apresentou projeto de lei, aprovado por unanimidade, criando a Semana Ruth Guimarães, em Cachoeira Paulista, e foi criada no Centro Cultural da cidade a Sala Ruth Guimarães.

Em 2017, o Instituto Silo Cultural, de Paraty, coordenado pelo compositor e cantor Luís Perequê e sua esposa, a coreógrafa e bailarina Vanda Mota, entusiasmados por Ruth Guimarães, foi oferecido como sede para uma exposição e local de debates sobre a vida e obra da escritora. Inserida na programação oficial da Flip 2017 – Festa Literária de Paraty, a exposição foi um sucesso de público, com grande repercussão nacional e internacional. Naturalmente cresceu a curiosidade do público de saber mais sobre a escritora valeparaibana. Seguiram-se dezenas de convites para que o material exibido na Flip circulasse por vários locais. Apenas como exemplo, foram feitos eventos dedicados a Ruth Guimarães em Areias, Jacareí, São José do Barreiro, Lorena, Guaratinguetá, Cruzeiro, Caraguatatuba, São Paulo, entre outros.
Em 2018, afinal, com o lançamento da nova reedição do livro inaugural de Ruth Guimarães (Água Funda, lançado originalmente em 1946, pela Editora Globo), dessa vez pela Editora 34, de São Paulo, com capa de Tarsila do Amaral, a excelente receptividade fez com que a família tomasse a decisão.

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Edmundo Carvalho, Aurelino Ferreira Jr e Joaquim Maria Botelho - Fundação do Instituto Ruth Guimarâes

A fundação do Instituto
Foi realizada assembleia para instalação do Instituto Ruth Guimarães, na mesma chácara onde funcionará a sede, no dia 18 de agosto de 2019. Comparecerem cerca de 100 pessoas, que se tornaram membros fundadores. Pode-se contar outras 50 que não puderam comparecer, mas que foram incluídas como membros honorários, pela sua importância social e intelectual.
A primeira diretoria eleita: para presidente do Conselho Diretor, Júnia Guimarães Botelho, para secretário-geral, Joaquim Maria Guimarães Botelho, e para tesoureiro, o escritor Edmundo Carlos Carvalho. Para o Conselho Consultivo, foram eleitos João Batista de Andrade, Juraci Faria Condé, Diego Amaro de Almeida, Severino Antonio, Neide Almeida, Olavo Guimarães Botelho e Fernanda R. Miranda. E, para o Conselho Fiscal: Carlos Varella, José Antônio Bittencourt Ferraz e Eduardo César Werneck

Com a criação do Instituto, Ruth Guimarães vive, está entre nós, com sua obra literária. Sua trajetória de pesquisadora da cultura popular e do folclore, associada a uma intensa produção erudita no campo da tradução e da crítica literária, a colocam no cenário dos grandes intelectuais brasileiros.